09 fevereiro 2014

A Mãe e a Bola

Ele devia ter jogado futebol. Mas não. Nasceu com a maldade e só viveu para ela. Moleque, punha passarinho vivo na bacia de água quente; rapaz, roubava dos vizinhos; adulto, brigava, xingava, sumia.
No mesmo beco, os meninos jogando bola e ele sozinho, não falava. Com a família, grande, pobre, a mãe velha e quase surda, só aos gritos.
E assim foi.
Mais do que adulto, roubos maiores. Prisões. Fugas. Tiros no peito, na barriga, no pescoço. Surras de polícia e de bandido.
A magreza, os ex-dentes, as cicatrizes, as desfigurações. Cirurgias, sangramentos, fomes e comas. A morte tentava, mas não conseguia.
Até que, quase velho, voltou pra casa da mãe, sozinha, mais do que velha, surda.
Ele e ela. Calado, abafada. Outros meninos, como os antigos e os de sempre, jogando bola no beco. Ele não olhava.
Parou de roubar, de ser preso, de apanhar, de levar tiro e facada. Nos cantos. Sem conversa. Sem nada.
A única coisa era, todo fim de tarde, a pedido da mãe, ligar um disco de que ela gostava. Ela sentava e ouvia inteiro, de olhos fechados. O volume no máximo.
Nem sabia se a mãe ouvia. O sol no fim. Ele ali, ela lá. Ele em dó, ela em si.
Quando acabava o disco ela reabria os olhos – e refechava os ouvidos.
Um dia, não abriu mais.
Então, o então.
Todos os dias seguintes, por dois meses, ele ligou o mesmo disco. E o beco ouviu as músicas e o seu choro alto como de um surdo gritando.
Todo dia.
Até morrer.
Sem nunca ter jogado bola.
Mas devia.
(Texto de Luiz Guilherme Piva) 

05 fevereiro 2014

A Dor da Derrota

Mas, nem só de flores vive quem se arrisca neste meio.
Uma derrota dói, mas dói muito mais do que se imagina.
E a dor se inicia ainda dentro da arena quando saímos de campo.
Sentado num banco qualquer do vestiário parece que a vida se nega a passar.
Apesar do movimento, ainda que triste, que nos cerca, há como que um bloqueio instantâneo na memória e na percepção.
Len..ta...men…te começamos a retirar do corpo as vestes que nos acompanharam naqueles 90 minutos de jogo.
Sujas e desconjuntadas, parecem trapos.
Eu mesmo sempre me senti um farrapo — se é que podia me considerar alguma coisa naquele momento.
A fronte caída e os braços arqueados desnudavam liminarmente o estado de espírito.
Encaminho-me ao chuveiro para, quem sabe, extirpar o dissabor instalado.
A água gelada não produz grandes transformações.
Pouco a pouco o silêncio se instala.
Olho para os lados e vejo ninguém.
Todos haviam se retirado sorrateiramente como a esconder certa vergonha e incompetência.
Vestindo-me, relembro eventos anteriores de extrema felicidade e prazer.
O contraste piora ainda mais o meu humor.
Reflito sobre as incongruências que o cotidiano nos oferece com incômoda freqüência.
Avaliações insanas e obcecadas.
Num dia somos deuses do Olimpo e Eros é perene a nosso lado.
Já no outro nos tornamos pessoas vis e descartáveis.
É muita incoerência a nos desafiar.
A nos tocar fundo na alma e mexer com nossos mais escondidos sentimentos.
É como se nos descobrissem inevitavelmente.
Uma estranha invasão. Que nos provoca, fere e mata um pouco a cada segundo.
Mas é de uma riqueza tão profunda quanto dolorida.
No caminho de casa tento esquecer os fatos recentes. Impossível.
Aquela bola que cruzei poderia ter sido mais lenta, mais à frente ou um pouco mais alta. Facilitaria a conclusão.
Meneio a cabeça. Não há como modificar o que se passou.
Volto à realidade.
Porta de casa, passos largos — enfim no meu abrigo.
Ele há de me proteger, saciar e aliviar. Procuro por companhia e nada. A solidão talvez seja a melhor companheira neste instante. Estatelo-me no sofá. Bebo alguma coisa que relaxe, me envolva e devolva o bem estar perdido. O líquido rarefeito invade a garganta com sofreguidão. Não me seduz. Esqueço-o.
Aquele lançamento no contra-ataque que tinha tudo para ser certeiro desviou na zaga. Centímetros à direita ou à esquerda possibilitariam a perfeição. Um erro, um único erro que poderia ter sido evitado. Sem ele teríamos tido mais chances e a derrota talvez não acontecesse. E eu não estaria deste jeito.
Doces sonhos!
Corro em busca de uma música que acalme e me encante. Infelizmente me sinto mais triste. Uma convulsão sentimental ataca e expele algumas lágrimas fugidias que escorrem por meu rosto cansado.
Aquela falta batida na intermediária tinha o destino certo. Deveria cair à frente do goleiro e escorregar por baixo de seu corpo. Sairíamos ganhando e nada nos tiraria a vitória.
Puro devaneio!
Estou arrasado. Mesmo com todo o esforço despendido, entregando-me às últimas consequências, sinto-me um nada, um zero à esquerda. É como se me tivessem tirado a consciência. Não consigo articular sequer um raciocínio lógico. O vazio cerebral se instalou de forma absoluta.
Pego um livro e não consigo construir suas imagens. Nada me consegue seduzir.
Resolvo tentar dormir. Vagarosamente me encaminho para o leito. Deito-me. Fecho os olhos mas as imagens não se afastam nem por um instante. Corroem-me por dentro. Vejo, como se fosse real, um cruzamento vindo da direita. O jogo ainda estava empatado. A bola vem limpa. Mato no peito ainda fora da área, driblo o primeiro zagueiro que se aproxima, coloco no meio das pernas do segundo e me vejo cara a cara com o goleiro. A multidão se levanta e grita. Uma onda de otimismo invade meu ser. Escolho o canto. Desloco o arqueiro para um lado e toco mansamente para o outro.
Neste momento — por incrível que possa parecer é sempre assim —, um barulho ensurdecedor de um caminhão de lixo na minha porta, me desperta.
Suado, agitado e assustado, eu me vejo.
E tento recuperar o gol que permaneceu no sonho interrompido.
Que nada!
Ele nunca existiu. Só na vontade louca de modificar o que se passou. Irresponsavelmente tento voltar a dormir.
Impossível.
É mais uma noite de derrota que é infinita até a próxima vitória.
(Texto do Doutor Sócrates)

03 fevereiro 2014

Fresca Fujona

Uma loira andava num zoológico, passou pela jaula do leão e leu: "Cuidado com o leão"; depois passou pela jaula da onça e leu: "Cuidado: onça" e passou por uma jaula vazia onde leu: "Cuidado: tinta fresca" e saiu desesperada gritando: tinta fresca fugiu, tinta fresca fugiu!

01 fevereiro 2014

Foi Mal!

Guilherme é quase um cinquentão.
Nasceu em 1º de abril de 1964. Junto com a ditadura militar.
Na faculdade, Guilherme estudava Economia.
Conheceu Maria de Lurdes, a Malu, moça linda que cursava, na verdade, que frequentava de vez em quando, o curso de Filosofia.
Ela parecia um personagem saído da peça Hair.
Vestia roupas exóticas, era vegetariana, defensora da natureza, pacifista, não era nada vaidosa e totalmente desapegada do mundo real e capitalista.
Mas, como nas clássicas histórias de amor, os opostos se atraíram e o capitalista se apaixonou pela hippie.
Wall Street se encantou por Woodstock. É 1982.
Começaram o namoro no mesmo dia em que a Itália eliminou o Brasil na Copa do Mundo.
“Será um mau sinal, começar nosso namoro num dia tão triste?”, perguntou ele.
“Nada a ver”, respondeu ela, “azar no jogo, sorte no amor”.
Recém-formado, Guilherme começou a trabalhar em um banco. Mas, não gostou daquela vida monótona.
Incentivado pelo pai e por Malu, decidiu tentar a vida como fotógrafo, já que fotografava por hobby.
O começo foi difícil, mas depois de muita ralação, conseguiu se firmar como um profissional reconhecido.
O Guilherme economista era só uma foto na parede.
Depois de formada, Malu passou a trabalhar como professora que sonhava em mudar o mundo nas passeatas e com folhetos e manifestos utópicos.
Estamos em 1986. Embora alma gêmeas bivitelinas, o amor entre Guilherme e Malu era mais forte.
Casaram. No mesmo dia em que o Brasil foi eliminado pela França na Copa do Mundo.
Será que isso era o sinal de alguma coisa?
O casamento deles era um azarão.
Todos achavam que não ia durar.
Mas, um foi se adaptando ao temperamento do outro.
Estavam para completar oito anos de casados com apenas uma divergência séria.
Ele queria filhos, ela não.
Por um descuido, porém, engravidou.
Guilherme ficou radiante. Malu, conformada.
Em 1994 nascia Valentina, no mesmo dia em que o Brasil foi tetracampeão contra a Itália.
O tempo foi passando até que numa certa noite Malu revela, sem muito entusiasmo, que estava grávida de novo.
Guilherme fez uma festa. Principalmente, depois que soube que era um menino.
Artur veio ao mundo em 2002, e como você já deve desconfiar, no mesmo dia em que o Brasil foi pentacampeão.
As coisas pareciam normais, até o dia em que, já em 2010, a empregada ligou para Guilherme.
Malu, não fora trabalhar nem buscar os filhos na escola.
Dias depois de muito desespero, ligações a hospitais, necrotérios e delegacias, Guilherme recebeu um email da mulher que dizia: “Gui, fui. Foi mal.”
Doze letras e quatro palavras que mudaram a vida daquela família.
O impacto foi tão grande que Guilherme nem percebeu que o email chegou no mesmo dia em que a Holanda despachava o Brasil na Copa da África.
(Texto de RICARDO PIEROCINI)
* * * * *

29 janeiro 2014

Elefante Branco

Antigamente, na Índia e na Tailândia, o elefante branco era um animal sagrado que não podia ser usado em trabalho. Quando o rei oferecia um destes animais a um cortesão, este tinha de o alimentar, mas não retirava daí nenhum proveito, ou seja, possuía algo muito valioso, mas que só lhe dava despesas, conduzindo-o, muitas vezes, à ruína. É esta a origem da expressão “elefante branco”, tantas vezes aplicada aos estádios construídos para a Copa do Mundo na África do Sul, em 2010, e no Brasil, em 2014.

26 janeiro 2014

Flea Schumacher

Você conhece o Michael, o Ralf, talvez tenha ouvido falar na Corinna, na Cora, no Mick, na Gina.  A família Schumacher não é exatamente uma novidade pra quem gosta de esportes, especialmente a F-1.
Mas talvez a Flea você não conheça.
Em 1996, já campeão do mundo duas vezes e estreante na Ferrari, Schumacher estava em seu boxe quando viu um fiscal de pista afastar a pontapés um vira-latas que rondava aquela área em Interlagos.
Michael deixou o que estava fazendo e foi pedir que o rapaz não tratasse o animal daquela forma. O fiscal explicou que era um vira-latas e que vivia por ali procurando comida e alguma atenção.
Cheio de pulgas, carrapatos e sarnas, a cadelinha olhava com o rabo entre as pernas para a conversa dos dois. Até que Michael se aproximou e a tratou com carinho.
Voltou ao boxe, chamou sua esposa e pediu que ela levasse a cadelinha para um veterinário próximo para dar vacinas, tratar as pulgas e os carrapatos, além de um bom banho e ração.
Corinna fez isso enquanto Michael treinava. E retornou com a cadelinha feliz da vida. Após as devidas “carteiradas” para que pudessem entrar com um cachorro no hotel, Schumacher perguntou se ela tinha dono. Informado que não, resolveu adotá-la.
E não mandou para uma ONG paulistana com uma verba mensal. Levou a cachorrinha para a Suíça, onde mora, e desde então “Flea”, que significa “pulga”, se tornou parte da família Schumacher.
A partir de então Flea mora num castelo, come do bom e do melhor e tem outros irmãos cachorros, a maioria adotados pelo piloto.
De vez em quando ia a algum grande prêmio passear com o dono.
Força, Schumacher!
(Texto de Rica Perrone)

21 janeiro 2014

20 janeiro 2014

Guerra de Falcões

Em um deserto próximo à cidade de Tabuk, na Arábia Saudita, competidores com seus falcões se reuniram para a realização de um campeonato para ver qual a ave mais rápida para capturar sua presa.
Os participantes soltam os animais, que precisam pegar as presas o mais rápido possível, e o vencedor leva um prêmio de mais de R$ 124 mil.
Falcões são parte importante da vida dos beduínos sauditas, que utilizam as aves para caçar coelhos e outros animais do deserto.

12 janeiro 2014

Lealdade

A cidade de Cochabamba, na Bolívia, é testemunha da lição de lealdade e perseverança de um cachorro vira-lata que há cinco anos espera na esquina de uma avenida pelo dono que morreu em um acidente de trânsito.
Alguns o chamam de "Hachi", lembrando o cachorro japonês que ficou famoso nos anos 20 por continuar fazendo por nove anos o caminho até a estação de trem para encontrar seu dono; outros o chamam "Huachi" ou "Huachito", mas o certo é que o cachorro de pelagem de cor café comoveu os moradores e comerciantes da Avenida Papa Paulo, na região nordeste de Cochabamba, que o alimentam.
"Faz cinco anos que seu dono morreu em um acidente de moto. O cachorro vinha atrás e ficou aqui desde então", diz à Agência EFE Román Bilbao Luján, proprietário de um açougue a poucos metros do lugar em que "Hachi" perdeu o dono.
O dono do cachorro era um universitário que todos os dias fazia esse caminho de moto acompanhado pelo cão, até que um dia o rapaz foi atropelado por um táxi e morreu quando era levado ao hospital, contou a jornaleira Aida Miranda, que trabalha no local, ao jornal "Opinión".
Desde então, "Hachi" fez da Avenida Papa Paulo seu lar e uiva na esquina onde ocorreu o acidente que lhe tirou o dono, disse à Agência EFE Elizabeth Martha García, que ajuda na venda de periódicos a Miranda. "Ele anda de esquina a esquina e volta para onde seu dono morreu. Vai caminhando, para em uma esquina e uiva quando vê o lugar onde seu dono morreu", acrescenta Elizabeth.
O Hachiko "original" foi um cachorro de raça Akita que pertencia a Hidesaburo Ueno, um professor de engenharia agrônoma da Universidade de Tóquio que morreu em 1925 após sofrer um AVC durante uma de suas aulas. Mesmo com a morte do dono, o cão foi todos os dias durante nove anos à estação de Shibuya, sempre no horário em que o trem que trazia Ueno chegava.
A lealdade de "Hachiko" foi imortalizada em uma estátua de bronze no lugar onde o cão esperava seu protetor, e sua história foi resgatada pela indústria cinematográfica de Hollywood no filme Sempre ao seu lado, com Richard Gere.
Assim que seu dono morreu, o "Hachi" boliviano não parava de chorar na esquina do acidente e uivava e latia desesperadamente cada vez que passava uma motocicleta pelo lugar, pensando que se tratava de seu dono, conta Román Bilbao.
Assim como os usuários da estação de Shibuya começaram a alimentar e cuidar diariamente de "Hachiko", o cão boliviano também despertou a compaixão e a solidariedade na Avenida Papa Paulo, onde as pessoas passaram a lhe dar carinho.
O cachorro sabe que tem café da manhã garantido com Bilbao, cuja loja funciona há 18 anos na Avenida Papa Paulo. Assim, a jornada de "Hachi" começa entre 6h30 e 7h na porta do estabelecimento de Bilbao, que o aguarda com pescoços de galinha e água.
"Hachi" pega um dos "presentes" e volta para sua esquina para comê-lo; depois caminha um pouco e no meio da manhã vai para um pequeno restaurante ou à loja vizinha, onde sabe que poderá receber algo para o almoço.
À noite, consegue alimento em uma churrascaria, onde o cachorro de olhar melancólico também recebe abrigo ocasional para passar a noite.
Várias pessoas tentaram adotar o cão, e até os parentes de seu antigo dono o levaram para casa, do outro lado da cidade. Aparentemente, no entanto, a saudade de "Hachi" é maior, por isso ele sempre consegue fugir para voltar à sua esquina a esperar que seu dono volte a passar por ali de moto, como nos velhos tempos.
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09 janeiro 2014

Pinel Paulista

Três paulistas e um mineiro numa clínica de malucos:
Primeiro paulista:
- Eu tenho muito dinheiro e vou comprar o Citibank.
Segundo paulista:
- Eu sou muito rico, vou comprar a General Motors.
Terceiro paulista:
- Sou um magnata... vou comprar a Microsoft!
E os paulistas ficam esperando o que o mineiro tem a dizer...
O mineiro engole a saliva, faz uma pausa, e diz:
- Num vendo!
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07 janeiro 2014

Divino Manco

Na história do futebol alguns jogadores tornaram-se heróis por serem exemplo de superação e esportividade. Em 1930, quando o futebol ainda engatinhava para se tornar o espetáculo que é hoje, um jogador surgiu e tornou-se uma lenda na história das Copas do Mundo: o atacante uruguaio Héctor Castro.
Revelado pelo extinto Clube Atlético Lito, aos 20 anos Héctor se transferiu para o Nacional onde fez história e ganhou o apelido de "El Divino Manco". Com um prestígio em alta devido a suas ótimas apresentações pelo tricolor, conseguiu chegar a seleção uruguaia e lá conquistou uma Copa América (1926) e uma medalha de ouro nos jogos olímpicos de 1928 na Holanda, tudo isso antes de disputar a Copa de 30.
O técnico uruguaio Alberto Suppici convocou para a Copa-30 22 jogadores e entre eles estava "el manco". Na competição, tornou-se o primeiro jogador uruguaio da história a fazer um gol em Copas do Mundo na vitória de 1 a 0 em cima do Peru, dia 18 de Julho de 1930.
Titular absoluto, "El Divino Manco" participou diretamente do título da celeste fazendo mais um gol, sendo esse na final contra a Argentina. O feito eternizou a carreira desse craque que deixou de lado sua deficiência para se tornar um exemplo de superação no mundo do futebol.
Héctor Castro nasceu em Montevidéu no dia 29 de Novembro de 1904 e viveu como qualquer criança da época até os 13 anos, quando em um acidente com uma serra elétrica perdeu parte do seu braço direito.
Ídolo do Nacional, em 1932 Hector teve uma breve passagem pelo Estudiantes de La Plata (ARG), mas logo voltou ao seu clube do coração para conquistar mais dois títulos: em 1933 e 1934 (Já havia conquistado um título nacional em 1924). Ainda como jogador, conseguiu outra Copa América em 1935.
Depois dessas inúmeras conquistas, aos 31 anos Héctor decidiu se aposentar e depois de cinco anos voltou para o futebol, mas agora como treinador no próprio Nacional, onde ganhou o campeonato uruguaio de 1940, 1941, 1942, 1943 e 1952.
Após um breve período na direção da seleção do Uruguai em 1959 (onde misteriosamente se demitiu), morreu no dia 15 de setembro de 1960 aos 55 anos.
Sem parte de um dos braços, Héctor Castro tornou-se 
um exemplo de superação no futebol.

06 janeiro 2014

Oropa, França e Bahia


Oropa, França e Bahia
(Ascenso Ferreira)
Num sobradão arruinado
Tristonho, mal-assombrado
Que dava fundos pra terra
Para ver os marujos
Quando vão pra guerra
E dava fundos pro mar
Para ver os marujos
Ao desembarcar 

Morava Manuel Furtado
Português apatacado
Com Maria de Alencar!
Maria, era uma cafuza
Cheia de grandes feitiços
Ah! os seus braços roliços!
Ah! os seus peitos maciços!
Faziam Manuel babar... 

A vida de Manuel
Que louco alguém o dizia
Era vigiar das janelas
Toda a noite e todo o dia
As naus que ao longe passavam
De Oropa, França e Bahia!
Me dá uma nauzinha daquelas
Lhe suplicava Maria
Estás idiota, Maria
Essas naus foram vintena
Que eu herdei de minha tia!
Por todo o ouro do mundo
Eu jamais as trocaria!
Dou-te tudo que quiseres
Dou-te xale de Tonquim!
Dou-te uma saia bordada!
Dou-te leques de marfim!
Queijos da Serra da Estrela
Perfumes de benjoim...
Nada
A mulata só queria
Que Seu Manuel lhe desse
Uma nauzinha daquelas
Inda a mais pichititinha
Pra ela ir ver essas terras
De Oropa, França e Bahia
Ó Maria, hoje nós temos
Vinhos da Quinta do Aguirre
Umas queijadas de Sintra
Só pra tu te distraíre
Desse pensamento ruim...
Seu Manuel, isso é besteira
Eu prefiro macaxeira
Com galinha de oxinxim
Ó lua que alumiais
Esse mundo do meu Deus
Alumia a mim também
Que ando fora dos meus
Cantava Seu Manuel
Espantando os males seus

Eu sou mulata dengosa
Linda, faceira, mimosa
Qual outras brancas não são
Cantava forte Maria
Pisando fubá de milho
Lentamente no pilão
Uma noite de luar
Que estava mesmo taful
Mais de 400 naus
Surgiram vindas do Sul
Ah! Seu Manuel, isto chega
Danou-se de escada abaixo
Se atirou no mar azul
Onde tu vais mulhé?
Vou me daná no carrossé!
Tu não vais, mulhé
Mulhé, você não vai lá
Maria atirou-se n'água
Seu Manuel seguiu atrás
Quero a mais pichititinha!
Raios te partam, Maria!
Essas naus são meus tesouros
Ganhou-as matando mouros
O marido de minha tia
Vêm dos confins do mundo
De Oropa, França e Bahia
Nadavam de mar a fora
Manuel atrás de Maria
Passou-se uma hora, outra hora
E as naus nenhum atingia...
Faz-se um silêncio nas águas,
Cadê Manuel e Maria?!
De madrugada, na praia
Dois corpos o mar lambia
Seu Manuel era um boi morto
Maria, uma cotovia
E as naus de Manuel Furtado,
Herança de sua tia?
Continuam mar em fora
Navegando noite e dia...
Caminham para Pasárgada
Para o reino da Poesia
Herdou-as Manuel Bandeira
Que, ante minha choradeira
Me deu a menor que havia!
As eternas naus do sonho
De Oropa, França e Bahia!