22 agosto 2014

Caráter de Ouro

Guilherme Murray tem 12 anos e está disputando o Campeonato Panamericano de Esgrima pelo Brasil, em Aruba, no Caribe, numa categoria, espada, dois anos acima de sua idade.
Hoje ele foi eliminado nas oitavas de final.
Perdeu de 10 a 9.
Mas só porque quis.
Ele ganharia o jogo.
O árbitro deu o toque em favor dele.
O Guiga foi ao árbitro e disse que havia um engano, que ele não havia tocado o adversário.
O árbitro tirou-lhe o ponto.
O menino deixou as pessoas impressionadas com seu espírito olímpico.
Um garoto, no meio dos grandes, que poderia estar entre os oito melhores da América, vai ao árbitro, comunica o erro e é eliminado da prova por sua atitude, ao recusar um ponto que não era dele.
Também fruto dos ensinamentos de ética no esporte que os Mestres Régis Trois, Ricardo Ferazzi e Carla Evangelisti professam na sala de esgrima do Club Athletico Paulistano.
Antes de formarem atletas, se preocupam em formar pessoas de caráter.
Hoje Guilherme Murray, campeão brasileiro, sul-americano, e de tantos outros torneios nacionais e internacionais, saiu de Aruba mais campeão do que nunca.
(Por Juca Kfouri)

18 agosto 2014

Barbeiragem

Um motorista de 85 anos "estacionou" o carro na piscina no quintal de sua casa em Altadena, no estado da Califórnia, Estados Unidos, depois que prendeu o sapato nos pedais do veículo. O carro ficou totalmente submerso, mas o motorista conseguiu sair antes e não ficou ferido.
Segundo as autoridades, também não havia ninguém na piscina no momento do acidente.

16 agosto 2014

Éder Aleixo

Éder Aleixo de Assis nasceu em Vespasiano-MG, no dia 25 de maio de 1957. Começou sua carreira em 1975 no América Mineiro, como ponta esquerda. Após se transferir para o Grêmio, foi comprado por um dos rivais do Coelhão: o Atlético Mineiro. Lá permaneceu a maior parte de sua carreira, e lhe rendeu convocações para a Seleção Brasileira durante muitos anos.
Hoje morando em Pimenta-MG, defronte a um lago de Furnas, Éder simplesmente um dia abandonou um jogo em pleno andamento e sem ordens do treinador Jair Pereira.
O Galo dele, em 1991, jogava pelo Campeonato Mineiro em Pouso Alegre.
Logo de cara Éder fez Galo 1 a 0 e em seguida o Pouso Alegre empatou.
Dez minutos depois ele desempatou: 2 a 1!
Mas de novo o Pouso Alegre empatou.
Mais cinco minutos e Éder fez 3 a 2.
Só que em seguida o Pouso Alegre cravou 3 a 3!
Saiu a bola, e do meio-campo, no chamado “gol que o Pelé jamais conseguiu fazer”, Éder encobriu o goleiro fazendo 4 a 3 para o Galo.
Abraçado por todo o time, ele se desvencilhou de seus companheiros e… foi embora!
Alegação: “essa nossa defesa não presta…”.
O treinador Jair Pereira ficou pê da vida, houve uma multa que Éder nunca pagou e o Galo venceu por 4 a 3.
Mas defesa ruim por defesa ruim, já pensaram se o Éder estivesse naqueles 7 a 1 da Alemanha no Mineirão?
(Texto de Milton Neves)

14 agosto 2014

Maria Chuteira

Só depois de duas segundas ele folgava – era a escala no time: de sol a sol, todos os dias.
Descanso às terças-feiras, somente, e quinzenal: numa ele ficava lá, só a outra é que tirava, e era pra si, pros amigos, pra bebida.
Eu sozinha.
A quarta, que dó, dia de jogo, e quinta, de treino – mas estas eram justas.
Mas nem a sexta pra mim?
Nem o sábado? Como é que faz?
E então de novo domingo.
Claro, de jogo.
Ele de novo no sol.
Um dia ele veio antes, no meio da segunda semana.
O outro time não foi, o treinador antecipou a folga.
Deu no que deu.
Uma tristeza.
Hoje ele nem joga mais.
E eu aqui, sozinha, com esse filho que nem sei se é dele.
(Texto de Luiz Guilherme Piva)

12 agosto 2014

Paizão Orgulhoso

Quatro amigos se encontraram em uma festa, após 25 anos sem se ver. Alguns drinques aqui, bate-papo dali, e um deles resolve ir ao banheiro. Os que ficaram falaram sobre os filhos. 
O primeiro disse:
- Meu filho é meu orgulho. Ele começou a trabalhar como office-boy, estudou, formou-se em administração de empresas, foi promovido a gerente e hoje é o presidente da empresa. Ficou tão rico que, no aniversário de um amigo, deu uma Ferrari para ele.
O outro disse:
- Nossa, que beleza! Mas o meu filho também é um grande orgulho para mim. Ele começou trabalhando como entregador de passagens. Estudou e formou-se piloto. Foi trabalhar em uma grande empresa aérea. Resolveu entrar de sociedade na empresa e hoje ele é o dono. Ele ficou tão rico que, no aniversário de um amigo, deu um avião de presente para ele.
O terceiro falou:
- Nossa, parabéns! Mas o meu filho também ficou muito rico. Ele estudou e formou-se em engenharia. Abriu uma construtora e deu tão certo que ficou milionário. Ele também deu um super presente para um amigo que fez aniversário: um apartamento de luxo!
O amigo que havia ido até o banheiro chegou e perguntou:
- Qual é o assunto?
- Estamos falando do grande orgulho que temos de nossos filhos. E o seu? O que ele faz?
- Não posso dizer que ele é meu grande orgulho: sai com tudo quanto é homem, é cabeleireiro e maquiador, mas devo admitir que é um grande sortudo. Sabe que ele fez aniversário e ganhou um apartamento, um avião e uma Ferrari de presente?

07 agosto 2014

Palito

Um senhor já com mais de setenta anos, rico, depois de cinquenta anos, resolve voltar anônimo à sua distante e diminuta cidade de nascença.
Nunca mais ele voltara. Recentemente, dera uma olhada no Google Earth, mas a foto era borrada – como ocorre com os lugares desimportantes.
Foi de avião até a capital, de carro até o hotel da cidade próxima, e de ônibus e roupa comum no último trecho. Andou pelas ruas conhecidas. Viu casas e semblantes familiares. Percebeu que ninguém o conhecia. Nem os mais velhos – os quais ele identificava perfeitamente.
Viu que sua antiga casa e as vizinhas deram lugar a uma espécie de praça, com um campo de terrão onde, meio-dia, o sol de quarenta graus, homens, rapazes e meninos jogavam bola.
Apertou os olhos pra distinguir as jogadas na poeira. Sentou-se na lanchonete.
Daí a pouco, fim de jogo, os mais velhos – pouco mais novos que ele – vieram tomar cerveja. Ele ficou ouvindo.
Até que a conversa – como todos os domingos – concentrou-se no Palito. “Que jogador!”. “Nunca houve nem haverá nenhum igual!”.
Eles contam e recontam entre si que o time local, durante o período em que o centroavante magro e alto jogara, dos dezesseis aos vinte anos, ganhara tudo. Era um assombro.
“E aquela vez que fez o gol de falta do meio da rua?!”. “E a goleada dos quatro gols de cabeça?!”. Batera o recorde de gols e vitórias na redondeza. Enchia de gente pra ver os jogos. “Lembram quando ele jogou machucado? Mancando, deu um corte no volante e bateu no ângulo?!”. O narrador se levanta e imita os movimentos do Palito.
O dono do bar para pra ouvir. Os meninos ficam em volta. “Na idade de vocês”, um deles fala pros moleques, “ele era o nosso ídolo”.
Ele respira, sorrindo, contido. Enche o peito.
“Sumiu. Novo ainda. Ninguém sabe pra onde. Nem a família sabia. Até que mandou buscar todo mundo.”
Silêncio. Ele cofia as sobrancelhas suadas. Bebe a água engasgando.
“Ele era um espanto! Aqui nunca houve ninguém igual. Nem doutor, nem empresário, nem nada. Quem é daquela época daria tudo pra revê-lo, saber o que houve, contar e recontar os jogos fantásticos.”
Ele se levanta. Hesita um pouco. Alisa os cabelos. Olha pra turma. Eles fazem um meneio de cumprimento com a cabeça.
Sai andando até a praça. Sorri.
Não era ele, óbvio. Nunca jogara futebol na vida.
Mas concluiu que daria tudo o que tinha pra ser o Palito.
(Texto de Luiz Guilherme Piva)

05 agosto 2014

Capitalismo

O Capitalismo no mundo:
Capitalismo ideal: você tem duas vacas, vende uma, compra um touro e multiplica o rebanho, vende o rebanho, se aposenta e vive de renda!
Capitalismo americano: você tem duas vacas, vende uma, força a outra produzir leite por quatro e fica espantado quanto ela morre!
Capitalismo francês: você tem duas vacas e faz greve porque você teria direito a três!
Capitalismo japonês: você tem duas vacas, faz enxerto nas duas para que produza vinte vezes mais leite e depois faz um game chamado vaquemon e vende para o mundo todo!
Capitalismo inglês: você tem duas vacas, mas as duas são loucas!
Capitalismo holandês: você tem duas vacas, porém elas não gostam de touros, vivem juntas e tudo bem!
Capitalismo alemão: você tem duas vacas que produzem leite da melhor qualidade e na hora certa, na quantidade exata, e caso isso não ocorra elas são executadas, mas na verdade eles queriam é criar porcos para fazer salsichas!
Capitalismo russo: você tem duas vacas, ou melhor 15, ou melhor 18, não, na verdade são 22, não... você para de contar e abre uma garrafa de vodka e pronto!
Capitalismo suíço: você não tem vaca, mas cobra para guardar as vacas dos outros e ainda produz o melhor chocolate ao leite do mundo!
Capitalismo cubano: você tem duas vacas, uma é estatizada e outra foge para Miami!
Capitalismo chinês: você tem duas vacas pirateadas e tem 300 chineses tirando leite em regime de trabalho escravo!
Capitalismo indiano: você tem dois milhões de vacas, mas não pode tirar leite porque elas são sagradas!
Capitalismo brasileiro: você tem duas vacas, inscreve uma no Bolsa Família, outra no Fome Zero e passa a viver de renda!
(Texto de Carlos A. Tripolli)

03 agosto 2014

Esperança

Baseado em um estudo sobre o mundo atual...
* Para cada pessoa dizendo que tudo vai piorar, 100 casais planejam ter um filho.
* Para cada corrupto, existem 8 mil doadores de sangue.
* Enquanto alguns destroem o meio ambiente, 98% das latinhas de alumínio já são recicladas.
* Para cada tanque de guerra fabricado no mundo, são produzidos 130 mil bichos de pelúcia.
* Na internet, a palavra AMOR tem mais resultados de busca do que MEDO.
* Para cada arma que se vende no mundo, 20 mil pessoas compartilham uma leitura da bíblia.
* Existem razões para acreditar...
* Porque os bons são a MAIORIA!
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01 agosto 2014

29 julho 2014

Cabide de Emprego

Cabide De Emprego
(Dicró)
Se não fosse o crime, muita gente morria de fome
O vagabundo é quem garante o pagamento dos homens
Porque um preso dá vários empregos, você pode acreditar
É um polícia pra prender
Um delegado pra autuar
Um promotor pra fazer a caveira
Um juiz pra condenar
Um carcereiro pra tomar conta
E um advogado pra soltar
Se não fosse o crime, muita gente morria de fome
O vagabundo é quem garante o pagamento dos homens
Eu não faço apologia, mas infelizmente é verdade
Existe o bem e o mal
Em todo canto da cidade
Quem nunca foi assaltado, por favor, levante o dedo
A maré esta tão braba, que eu já ando até com medo

20 julho 2014

Catimbeiro

O negócio dele é fazer cera.
Só entra no fim, quando o time está ganhando e precisa segurar o jogo.
Orgulha-se: “administro a partida!”, diz, como quem apresenta uma profissão ou cargo complexo.
Demoras na cobrança de faltas e laterais, quedas com dores, empurra-empurra, reclamações, toquinhos, paradas para arrumar as meias e as chuteiras, simulações – a coleção completa.
Usa com enorme competência as expressões e os gestos de quem encarna os personagens e as situações.
Aliás, tal como um ator, prepara-se muito. Ao longo da semana ensaia cenas que podem ser usadas. Muitas vezes divulga entre conhecidos que é dúvida por conta de uma contusão – criando veracidade para atendimentos médicos do domingo.
Nem participa com os demais de toda a preparação normal. Faz com eles o aquecimento, o dois toques, um pouquinho do coletivo. Depois reúne uns auxiliares e começa o ensaio: trombadas, gritos, socos, faltas de ar, tonturas, caminhadas arrastadas, toquinhos inúteis pra trás e pros lados.
Chega a crer em muitas das falsas contusões que sofre nos jogos – a ponto de alguns atendimentos médicos urgentes terem se realizado de fato. Só na hora dos exames é que ele e o doutor se lembram.
“Uma vez administrei uma partida histórica…”, e enche de detalhes e orgulho a narrativa pros amigos.
“Quando eu comecei não era fácil…”.
“Meu recorde foram 37 minutos de bola parada, somando tudo – e entrei quando faltavam 20 pra acabar o jogo!”, os olhos dos ouvintes famintos, lábios pendentes.
“Já veio gente de fora pra eu preparar”.
“Pus a bola debaixo do braço e…”.
“Um juiz chegou a me visitar na segunda pra ver se eu estava bem”.
“Cicatrizes, hematomas – acho que é psicológico, meu trabalho é muito verdadeiro”.
“Fora goleiro, não escolho posição”.
E não se limita aos truques clássicos.
Já vomitou em campo; iniciou diálogo com o juiz fingindo transtorno grave (“por favor, que jogo é esse?” e, depois da resposta, “mas é futebol, né?”), o que fez a arbitragem parar tudo, assustada; agarrou-se ao bandeirinha babando no seu ombro por causa de “tontura”; caiu junto com o goleiro adversário dentro do gol e produziu um grande enredamento duplo que exigiu chamar especialistas para soltá-los; furou bolas com estiletes até o jogo acabar por falta delas; fingiu intoxicar-se com a cal numa queda no meio de campo; sofreu cegueira momentânea; combinou com um amigo para atender ao celular no alambrado e chamá-lo alegando que a mãe passava mal: ele atendeu, falou, chorou, os adversários e árbitros o consolaram até que ele recusou a proposta de adiamento da partida: “sou profissional, o jogo tem que continuar”, disse aos soluços; jogou insetos e larvas no gramado para enchê-lo de quero-queros; num ataque perigoso do oponente, deu uma cutelada no pescoço do seu próprio goleiro, que caiu agonizando e a jogada foi paralisada.
Um artista.
Ou, sua própria avaliação, um gênio
Acha que um dia vão reconhecer seu talento à altura.
Um busto, medalhas com seu rosto, nome de sala, alguma coisa.
Mas o que ele mais quer é outra coisa.
Seu sonho é, uma vez só ao menos, iniciar um jogo. Noventa minutos para administrar, reger, comandar, fazendo uso do largo repertório conforme cada situação, ditar o andamento, o tom, o enredo.
O astro central. Do começo ao fim. O maestro. Orquestra e público ao seu controle.
Aposta que quase não haveria jogo. Que tudo se arrastaria sem que nada importante acontecesse.
No apito final, todo mundo estaria absolutamente limpo, seco, inteiro, descansado.
Só ele um caco, estropiado, sujo, marcado, suado, mancando, roxo, arranhado, rasgado, sem fôlego, cuspindo, apoiado nos ombros do médico e do massagista e segurando, realizado, o Ipad de melhor em campo.
Não duvido.
(Texto de LUIZ GUILHERME PIVA)

16 julho 2014

Complexo de Vira-lata

Amigos, vocês passaram o tempo todo da Copa falando de mim: Nelson Rodrigues pra cá, pra lá…
Antes eu era o pornográfico, o reacionário, agora virei técnico de futebol. E me citavam. Todos diziam que tinha acabado o nosso “complexo de vira-lata”. Mas esse complexo que eu descobri pode existir também ao avesso (Freud nem me olha aqui no céu, com uma inveja danada). Mas ele não é apenas o pavor diante dos estrangeiros, a cabeça baixa, o “sim, senhor”, a alma de contínuo. Não.
Esse complexo aparece na submissão à Fifa, lambendo-lhe os pés como cachorrinhos gratos, nas arenas grã-finas. O vira-lata estava ali. Podemos botar uma fitinha cor-de-rosa no vira-lata que ele continua sendo um legítimo vira-lata, cheirando postes e abanando o rabo.
Para nossos jogadores ricos e famosos, o Brasil é a vaga lembrança da infância pobre, humilhada. O país virou um passado para os plásticos negões falando alemão, todos de brinco e com louras vertiginosas. Não são maus meninos, ingratos, não, mas neles está ausente a fome nacional “por um prato de comida,” a ânsia dos vira-latas.
Já disse e repito que, antes, nas Copas do Mundo, éramos a pátria de chuteiras. Hoje, somos chuteiras sem pátria. Fomos infeccionados pelo futebol europeu, mas pela metade; ficamos na dúvida se somos Pelé ou Dunga.
Nesta Copa, só o povo estava de chuteiras, para esquecer os escândalos que lhe mergulharam em cava depressão. Foi diferente de 1950. Lá, sonhávamos com um futuro para o país.
Agora, tentamos limpar nosso presente. Somos uma nação de humilhados e ofendidos, pois o país é dominado por ladrões de galinha e batedores de carteira. E a população queria que o escrete fizesse tudo o que o governo não fez. Mas era peso demais.
O brasileiro não estava preparado para ser o “maior do mundo” em coisa nenhuma. Ser o maior do mundo, mesmo em cuspe a distância, implica uma grave e sufocante responsabilidade. Além disso, era um time de várzea.
Isso era o óbvio; mas foi ignorado. E quando o óbvio é desprezado, ficamos expostos ao mistério do destino. E um dos fatos óbvios foi o endeusamento do técnico. Felipão era mais importante que o time. E ninguém é mais obstinado do que o sujeito que é portador de um erro colossal. O ser humano acredita mais em seus equívocos do que em suas verdades. O técnico é sempre contra a opinião geral.
Em vez de orientar as vocações dos rapazes, Felipão achou que todos tinham de caber em sua estratégia. O técnico devia ser um reles treinador, quase um roupeiro, humilde diante dos craques. Mas o Felipão os tratava como garotinhos inseguros ou então parecia um “Mussolini” de capacete e penacho. A própria figura do Felipão era deplorável – nervoso e malvestido, quase de pijama, era o retrato físico de nosso despreparo. O único jogador do “passado glorioso” foi Neymar – Didi, Zizinho, Ademir guiavam seus dribles.
Quando o alemão fez o primeiro gol, sentimo-nos diante da verdade de que os próprios jogadores suspeitavam: éramos 11 solitários, nosso time era uma ilusão que parecia realidade por causa de Neymar. Nossa meta não era o gol, era Neymar. Esse jovem gênio nos cegou, e com ele acreditávamos que o Brasil voltaria a seus melhores dias. Mas o Brasil nunca está em seus melhores dias. Não esperávamos uma vitória, mas uma salvação. Só a taça aplacaria nossa impotência diante da zona brasileira – era nossa única chance de felicidade.
E aí começaram as interpretações dos idiotas da objetividade: por que perdemos? Tentam explicar a derrota como uma bula de remédio. Como se a derrota tivesse explicação; toda derrota é anterior a si mesma, ela começa 40 anos antes do nada e vem desabrochar em nossos dias. Mas só podemos entender o que “não” houve. Atrás da derrota, estavam todos nossos vícios seculares: salvacionismo, milagres brasileiros, fé no improviso, vitórias abstratas e derrotas políticas.
Além disso, há entre nós e a loucura um limite que é quase nada. Enlouquecemos diante da Alemanha.
Nessa hora do jogo, a loucura explodiu feito uma libertação. Isso, nossa loucura não foi de Napoleões ou Neros, nossa loucura apareceu como um fundo desejo de parar, de ter sossego. Nos jogadores surgiu a ânsia do fracasso, como uma exaustão diante de tanta incapacidade.
Ao contrário do que disse o Parreira em 2006, de que “não estávamos preparados para perder”, dessa vez estávamos todos preparados para a calamidade e secretamente sabíamos disso. Depois daqueles seis minutos em que houve quatro gols, o absurdo adquiriu uma doce, persuasiva, admirável naturalidade.
Depois de 5 a 0, queríamos perder mais, queríamos espojarmo-nos na derrota absoluta, sentíamos a doce nostalgia do aniquilamento. E aí quem surgiu no estádio? O imponderável Sobrenatural de Almeida passou a dirigir o time como um técnico espectral, um fantasma trapaceiro. Dava até para ver que os alemães tiveram pena de nós, os anfitriões desmoralizados.
Até Felipão fez autocrítica. Mas a autocrítica tem a imodéstia de um necrológio redigido pelo próprio defunto.
É isso. Sempre que vai estourar uma catástrofe, o ser humano cai num otimismo obtuso, pétreo, córneo. E perde.
Agora, estamos com uma angústia épica, como uma víbora crispada dentro de nós.
E depois de perdermos para a Holanda por 3 a 0, vimos que não houve derrota – como haver derrota se não tínhamos time? O povo viu no fracasso a confirmação de sua sina de vira-lata e desceu as rampas arrastando os chinelos, como em 1950.
Agora, eis o nosso dilema: ou o Brasil ou o caos. O diabo é que temos a vocação do caos. O Brasil precisa ser feito, e nós não o fazemos. O mal da cultura brasileira é que nenhum intelectual sabe bater um escanteio.
Mas ninguém cresce sem sentir o gosto amargo da vergonha. Sempre fomos condenados à esperança, ansiando por uma redenção pelo futebol, mas pode ser que agora a gente vá assumir a própria miséria, a própria lepra, e isso será nossa salvação.
(Texto de ARNALDO JABOR, no Estadão)