05 novembro 2014

03 novembro 2014

Penalidade Máxima

Muitos anos antes, diante do artilheiro que bateria o pênalti, ele previra esta tarde interminável em que seu filho o levava à sepultura.
A bola na marca.
A certeza de que ela será disparada com força, no canto oposto, rasteira, ou no meio do gol vazio, ou na sua cara, na sua testa, na boca do estômago.
A imensidão em torno dele, à disposição do artilheiro a apenas onze metros de distância.
Os segundos arregalam o pavor.
Bumbos nos tímpanos.
Gongos nos pavilhões.
Zumbido.
Súbito, o punhal da covardia lambe-lhe a coluna.
Tem então a certeza de que não importa que a bola vá para fora, ou que bata na trave, ou mesmo que ele a defenda.
Porque está claro que ali é a pequenez frente ao Universo. A fragilidade encurralada pelo indestrutível. O transitório domado pelo eterno.
O alvo acocorado e a goela do canhão a onze metros, para acertar onde queira com a potência que bem entenda.
Não importa se a bola vai para fora ou se bate na trave ou se ele a defende porque ele haverá de sempre estar ali, na mesma posição, a alma esfarelando, o corpo apodrecendo, os estampidos e os gritos, o lance à espera do desfecho agora antevisto.
Percebe que por todos os dias do futuro nenhuma defesa, erro ou trave impedirá o lance verdadeiro, perfeito, do qual aquele em curso é mera sombra, arremedo, ensaio.
Sabe então que a bola branca, gelada e silenciosa permanecerá doravante à sua frente, a ponto de ser atirada.
E prevê que haverá uma tarde, remota no futuro, em que seu filho o carregará pálido e gelado, recolhendo-o no chão depois do gol indefensável como a saraivada de um pelotão de fuzilamento.
(Texto de Luiz Guilherme Piva)

01 novembro 2014

Positivo, Operante

Aquela ali nem olha pro jogo. Só no celular. Que absurdo, tá dando mole pro espertinho de boné. E o maridão do lado, nada. Tá cego. Não tira o olho do campo.
O velhinho ali vem todo domingo. Xinga mais do que todo mundo. E ainda ensina pros netos. Cada palavrão que eu nem conheço. Vai acabar morrendo assim, espero que longe daqui. Podia ao menos dar um picolé pro garoto. Mão de vaca.
“Uuuh!”
É ridículo. Todo mundo de pé. Deve ter sido um chute perigoso. Adianta levantar?
Só de olhar pra cara deles eu sei onde está a jogada. Sei que time está atacando mais. Sei se o jogo é rápido ou lento. Se é bom ou ruim.
Aqueles ali ficam acompanhando o bandeirinha em vez de olhar o jogo. Ele corre bem aqui atrás de mim. Eles ficam em cima dele, pra frente e pra trás na arquibancada. Um levantou a mão com uma laranja pra jogar nele. Quando me viu, disfarçou. Pus a mão no cassetete de leve, sem ameaçar. Tá quietinho agora.
Tomara que os bebuns lá em cima não criem confusão. Já teve empurra-empurra. Daqui a pouco dou um rádio pra pedir reforço.
“Uuuh!”
Caramba, não sai gol e esse pessoal não desiste. Que graça? Melhor em casa, pela TV. Cerveja, pipoca, chinelo. Aqui essa barulheira, essa confusão. Ainda arrisca a tomar porrada.
O de amarelo. Acho que foi nele que desci o porrete no mês passado. Deixa eu ver. É sim. A marca roxa no braço.
Caramba. É a segunda bolada que levo na nuca. Esses caras não sabem jogar?
Mais uma e é neles que eu vou descer a mão.
Olha o cara de boné. Chegou perto dela. Fazendo sinalzinho. A safada ainda sorri. Dá vontade de avisar o chifrudo. Se bem que merece. Pronto. Passou o número do celular. Cansei de ver isso. É tudo vagabunda.
“Uuuh!”
Coitado. O da laranja não tira o olho de mim, morrendo de medo. Finjo que não vejo. Bem-feito. É pra aprender a respeitar. Ver quem manda.
Intervalo é ruim. O rádio fica essa mistura de chamadas e informações.
Não entendo nada. Hein? Prenderam? Segura. Depois do jogo eu vejo. Lá na saleta. Deixa o cabo com ele. Hein? De leve, sem machucar.
Nem um guaraná eles dão. Nem mexer, nem olhar pra trás. Nem sentar. Xixi é na farda mesmo. Fede tudo. Ainda bem que ponho proteção. Ninguém vê o molhado.
“Uuuh!”
Acho que vai ser zero a zero essa droga. Pelo menos estão atacando mais. Vai acabar saindo gol desse jeito. Podia. O pessoal ficava mais relaxado.
Cacete. De novo essa bola. O gandula ainda vem empurrando pra pegar. Vou dar nele, vai ver. Hein? Repete. Sim. Na saleta, já falei. Tá chiando.
Essa o bandeirinha errou, tenho certeza. Os caras estão furiosos. Querem matá-lo. O velhinho vai ter um troço de tanto xingar.
Na escuta? É, o de boné. A menina de bermuda fingiu que está indo ao banheiro. Isso. Ali perto da grade. Olha ele indo atrás. Pode reter. Não quero confusão aqui. Bobear, dá morte.
Ainda bem que vi. Mais um pouquinho esses dois acabavam se agarrando atrás da pilastra.
“Uuuh!”
(Texto de Luiz Guilherme Piva)

25 outubro 2014

23 outubro 2014

Apocalipse

O chileno Francisco Negroni ganhou a categoria ambientes da terra do prêmio Photographer of the Year, na edição de 2014. Ele capturou a imagem que batizou de "Apocalipse", no Parque Nacional Puyehue, no sul do Chile. Negroni flagrou um evento raro: uma tempestade de raios provavelmente causada pelas descargas de eletricidade estática resultantes do choque entre rochas quentes, cinzas e vapor da erupção no complexo vulcânico Puyehue-Cordón.
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21 outubro 2014

Doida X Maluco

- A sua é maluca. Não fala coisa com coisa. Vive de promessas e tem essa mania louca de poder.
- O seu é que é doido. Parece não ter passado. Esqueceu tudo de ruim que já fez. E tem mais mania de poder que ela.
- Olha quem fala. A sua parece que vive num mundo da fantasia, completamente descolada da realidade. Olha para o mundo como se tudo estivesse bem.
- O seu é que é assim. Além disso, faz pose de santinho mas todos sabem que gosta é de gandaia.
- A sua saía escondida, à noite, para andar de moto. Onde já se viu, naquela idade.
- Eu não compraria um carro usado do seu.
- Eu não compraria nem um sapato da sua. Vai saber a procedência.
- O seu é um pilantra.
- A sua é chefe de gangue.
- O seu não deve tomar banho, cheira mal.
- Opa, está apelando. Melhor que a sua, que gasta rios de dinheiro com cirurgia plástica e cabeleireiro.
- O seu mente.
- A sua mente mais.
- O seu não perde aquele risinho irônico.
- A sua assassina a gramática quando fala.
- O seu é um escroto.
- A sua é uma vaca.
... ... ...
- Desculpem me intrometer. Estava aqui ao lado e não foi possível deixar de escutar essa discussão de vocês. Prestem atenção ao que eu digo. Podem ver, sou bem mais experiente que vocês. Isso não vale a pena. Vocês são um casal lindo. São namorados ou casados?
- Somos casados.
- Há apenas dois anos.
- Então, estão vendo. É bobagem colocar essa polêmica toda entre vocês. Mesmo eles, que estão brigando feio agora, logo fazem as pazes e estarão de conchavinho quando necessário. Quantas vezes já vimos isso...
- Do que é que o senhor está falando? O senhor conhece os dois?
- Pessoalmente, não. Mas sei quem são, claro. Estão na TV todos os dias.
- Na TV? Acho que o senhor está enganado.
- Vocês não estão falando da eleição?
- É claro que não.

- Estamos falando do meu pai e da mãe dela, que resolveram namorar. Eu não acho que ela é boa para ele.
- E eu não acho que ele seja bom para ela.
- Nossa. Agora sim devo pedir mais desculpas. Achei que o assunto fosse política, não algo pessoal.
- Tudo bem, foi um mal entendido engraçado. Sobre política a gente nem fala muito, mas concorda sempre. Vamos votar na...
- De jeito nenhum. Ela é doida.
- Ele é que é maluco!
Fonte:
http://atarde.uol.com.br/cultura/noticias/1632488-falam-por-ai-a-sua-e-maluca-o-seu-e-doido

19 outubro 2014

13 outubro 2014

Virando a Casaca

Indignação foi o mínimo. Teve agressão verbal, ameaça de linchamento, caras viradas, ofensas na internet.
- Mudou de time?
- Ficou louco?
- Tá de brincadeira?
- Vá to…
Ele nem aí. Resolveu. Apareceu na rua da vila, sábado de manhã, com a camisa do maior adversário. Sentou-se no boteco, como sempre. Os amigos riram, perguntaram se era trote, se era aposta, o que era.
- Nada. Mudei de time.
Todos sempre torceram para o time que agora ele abandonava. Iam aos jogos. Eram sócios. Filiaram-se à torcida organizada. Álbuns, camisas, bandeiras, cartões de crédito, até a latinha de cerveja. Depois do espanto, certificaram-se de que era sério. Houve um empurra-empurra barulhento, cadeiras levantadas, o pessoal da rua teve que intervir.
Ele se sentou de novo, sozinho. O pessoal foi embora olhando pra trás, vendo-o no bar com a camisa odiada.
Um deles não se aguentou. Quis correr de volta pro bar, com raiva. Os outros o detiveram. Ele, com lágrimas, vermelho, o pescoço inflado de veias, gritava:
- Não tá feliz, muda de sexo, porra! A gente aceita! Mas de time, não! Pelo amor de Deus!
Domingo a mesma coisa. Ele, na janela, vendo todos o apontarem. 
Pôs a camisa adversária e foi pro bar.
Outro corre-corre. Ligaram pro dono ameaçando pôr bomba no estabelecimento. Preocupado, o garçom pediu a ele que se retirasse. 
Ele parou na porta, fumou, alisou a camisa e seguiu pra casa.
Durante a semana, só silêncios e agressões virtuais.
Na sexta à noite, a mulher o procurou.
- Vou embora.
- Quê?
- Vou embora. Encontrei outra pessoa.
- Outra pessoa? Que história é essa?
- …
- Seu ex-namorado?
- Não.
- O cara da autoescola? Eu vi ele se jogando em cima de você durante a aula.
- Não.
- …
- É a Cleide.
- Como a Cleide?
- A Cleide. Do salão.
- A Cleide é mulher! Tá doida?
- Não. É do que eu gosto. Sempre desconfiei. Assumi.
- De mulher? Você gosta de mulher?
- Gosto. A Cleide também. Resolvemos morar juntas.
Ela saiu e ele ficou atônito.
Não dormiu.
No sábado cedo apareceu no bar com a camisa do antigo time. Os amigos olharam, se aproximaram devagar, perguntaram, foram se certificando, até terem certeza.
Deram-se um abraço enorme.
- É assim que se fala!
- Ê, companheiro!
- Sempre unidos!
- Brinda aqui!
- Quase nos matou com essa doideira!
Sentaram-se. No silêncio dos goles aproveitou e disse.
- Mas tem uma coisa.
O olhar de todos, mãos nos copos, copos nas bocas.
- Vou mudar de sexo.
(Texto de Luiz Guilherme Piva)

11 outubro 2014

Terapia de Areia

Uma cidade no deserto de Saara atrai turistas em busca de uma atração inusitada: banhos de areia.
Nas dunas de Merzouga, os visitantes são voluntariamente enterrados nas dunas douradas e quentes. Eles ficam com todo o corpo coberto, menos a cabeça, por cerca de dez minutos. Segundo se afirma, a terapia ajuda a curar aqueles que sofrem de reumatismo, lombalgia, artrite e algumas doenças de pele.
Os efeitos são semelhantes ao de uma sessão de sauna, ajudando a tirar toxinas do corpo, de acordo com um dos funcionários. “Oferecemos todo tipo de turismo aqui, mas especialmente o turismo voltado para a saúde”, diz.
A pequena comunidade de Merzoga fica no sudeste do Marrocos, onde a tribo berbere Ait Atta agora vive do turismo. Seus habitantes mantêm hotéis e restaurantes no local, que fica no topo de um mar de dunas de areia.
O banho de areia custa aproximadamente 10 euros (cerca de R$ 30). No final, os “pacientes” são cobertos com toalhas quentes para evitar o choque de um resfriamento súbito do corpo.

07 outubro 2014

Lengo Tengo


A Morte do Vaqueiro
-- (Luiz Gonzaga)
Numa tarde bem tristonha
Gado muge sem parar
Lamentando seu vaqueiro
Que não vem mais aboiar
Não vem mais aboiar
Tão dolente a cantar
Tengo, lengo, tengo, lengo,
tengo, lengo, tengo...
Ei, gado, oi
Bom vaqueiro nordestino
Morre sem deixar tostão
O seu nome é esquecido
Nas quebradas do sertão
Nunca mais ouvirão
Seu cantar, meu irmão
Tengo, lengo, tengo, lengo,
tengo, lengo, tengo...
Ei, gado, oi
Sacudido numa cova
Desprezado do Senhor
Só lembrado do cachorro
Que inda chora
Sua dor
É demais tanta dor
A chorar com amor
Tengo, lengo, tengo, lengo,
tengo, lengo, tengo...
Tengo, lengo, tengo, lengo,
tengo, lengo, tengo...
Ei, gado, oi
E... Ei...

05 outubro 2014

03 outubro 2014

Papai Noel FC

O FC Santa Claus, localizado no norte da Finlândia, foi criado em 1993, na cidade de Rovaniemi, próxima ao Círculo Polar Ártico. Tão incrível quanto o nome do clube é o seu símbolo: um Papai Noel escrevendo uma carta a alguma criança que deve ter exagerado no pedido de Natal.