08 janeiro 2015

Compositor Automático

- Você viu essa novidade dos estudantes do MIT?
- O que é MIT?
- Santa ignorância. É Massachussets Institute of Technology, uma das universidades mais importantes do mundo. Eles desenvolveram um aplicativo que cria instantaneamente músicas para tocar no Carnaval e nos programas de auditório da TV.
- Isso não é possível.
- É possível e simples. Basta baixar o aplicativo, digitar umas palavras e deixar a ferramenta fazer o resto.
- Você testou?
- Claro, e com palavras bem difíceis para ver se funcionava. As escolhidas foram: prolegômenos, exegeta, compostura, otorrino, baço.
- As duas primeiras eu nem sei o que significam.
- Eu sempre alimento seu vocabulário, não é mesmo? Vamos lá. Definições do Houaiss. Prolegômeno: "amplo texto introdutório que contém as noções preliminares necessárias à compreensão de um livro; introdução, prefácio". Exegeta, que se pronuncia como se o x fosse um z: "indivíduo que realiza exegese; comentarista, intérprete", um profundo conhecedor.
- Por que você escolheu essas palavras?
- Você queria alguma lógica nessa brincadeira?
- Tem razão. Qual foi o resultado?
- Ouça você mesmo:

"Estica o braço,
Põe a mão na cintura.
Sinta o
baço,
Esqueça a compostura.
Descendo, descendo, descendo, descendo até o chão.
Deixa de
prolegômenos e bate na palma da mão.
Descendo, descendo, descendo, descendo até o chão.
Vá ao
otorrino prá salvar o ouvidão.
Olha eu aqui, olha eu aqui.
Sou o
exegeta da sua carrapeta.
Olha eu aqui, olha eu aqui.
Sou o exegeta da sua carrapeta.
Sei que vai, sei que vem.
É gostoso, vem também.
Tira o pé do chão"

- Acho que ficou bom. Só não entendi a história da carrapeta.
- É que deve haver uma trava para rimas óbvias com palavrões.
- Não entendi... Ou melhor, entendi.

06 janeiro 2015

A Primeira Segunda

Você volta do fim de ano. Nem sabe de onde direito. Parece que saiu meses atrás para alguma dimensão localizada entre o Índico e a quinta-feira, ou era loira, ou borbulhava na piscina – vê, você ainda não pensa coisa com coisa.
Está de novo no local de trabalho. É o que dizem. Você concorda para não correr riscos.
E então resolve retomar pé do mundo com as coisas que de fato importam.
Em primeiro lugar, lê o noticiário futebolístico.
Aquela lista de reforços que seu time anunciava antes de você ter submergido (“onde foi o Reveillón?”), em que seis ou oito craques disputariam posição (“ou era Carnaval?”), virou um rol de nomes que você desconhece (“foi o champagne!”; “não saí ainda do caldo daquela onda!”; “a safada pôs algo na minha romã!”).
Você lê de novo. Zezinhoinho? Hermógenes? Cataldo? Salathiel? Joãozão?
Você olha o calendário. Não sabe o mês. Todos em volta sabem seu nome. É o que dizem. Você responde para não parecer louco.
Aquela lista de jogadores está em código?
Relê a lista e torce pra chegar de novo o fim de ano. Ou o Carnaval. E pensa que a morena dessa vez não escapará e você não apagará em cima do prato de lentilhas.
Em segundo lugar, você abre o extrato bancário.
Lembra que tinha o décimo terceiro. Uma parcelinha de bônus ou de PLR. Um guardadinho que você e a esposa (“meu Deus, é mesmo: eu sou casado!”) juntaram com esforço (“ainda bem que apaguei antes de fazer bobagem!”) e um limitezinho do cheque especial (“só se precisar, hein!, só em último caso!”).
Você arregala os olhos. Embranquece. Olha em volta. O calendário. As pessoas. Olha de novo o extrato e tem palpitação. A boca seca.
Nem limite do cheque tem mais.
Você está pior do que seu time.
Os que passam por você desejam um bom ano.
É o que dizem.
Você agradece.
(Texto de Luiz Guilherme Piva)

05 janeiro 2015

Passa Lá

Passa Lá
(Trio Parada Dura)
Por que você não passa lá?
Por que você não passa lá?
Você sabe onde me encontra, você tem meu endereço
Mas você não passa lá...
Fiz uma cama redonda, coloquei um colchão d'água com luz negra a girar...
Fiz um quarto espelhado, pra te ver de todo lado, quando você for banhar...
Fiz até hidromassagem, com solário na passagem pro seu corpo bronzear
Video-game e cassete, meu banzé não compromete...
Mas você não passa lá!
Por que você não passa lá?
Por que você não passa lá?
Você sabe onde me encontra, você tem meu endereço
Mas você não passa lá...
Botei som na cabeceira, coloquei na geladeira o seu drink
preferido...
Pus espuma na banheira, fiz a sauna de primeira, tudo já foi resolvido...
A mesinha, dois banquinhos, coloquei bem no cantinho pra
gente bebericar...
De segunda a segunda a saudade é tão profunda...
Mas você não passa lá!
Porque você não passa lá?...

04 janeiro 2015

Beque Esquisito

Vinte e poucos anos, mas pequeno como um triz.
Magro como uma fresta.
Fraco feito a gratidão.
Mas queria ser beque.
O chute era murcho, como se dado debaixo d’água.
A lentidão era a de uma fuga no sonho.
Enxergava em braile.
Mas queria porque queria.
Desestimulavam-no.
Só que ele era teimoso, parecia um trauma.
Ia aos treinos.
Ficava ali no barranco, ao lado do técnico.
Que teve dó – “ele tem a bondade de um idiota”, dizia! – e o escalou no jogo do infantil contra o bairro vizinho.
Jogo de festa.
Não valia nada.
E a molecada adversária deu um vareio: 10 a 0!
Tudo, aos risos próprios e de todos, em cima do “beque esquisito”.
Mas ninguém falou nada com ele.
Que estava incomparavelmente feliz.
Porque felicidade não tem metáfora.
(Texto de Luiz Guilherme Piva)

02 janeiro 2015

01 janeiro 2015

Sortudos da Virada

00 Cidade dos Ganhadores da Mega da Virada:
00 31.12.2009: (1140) – R$ 72.450.747,46
01 00.00.0000: Brasília-DF
02 00.00.0000: Santa Rita do Passa Quatro-SP
00 31.12.2010: (1245) – R$ 48.598.800,01
03 00.00.0000: Cariacica-ES
04 00.00.0000: Belo Horizonte-MG
05 00.00.0000: Fazenda Rio Grande-PR
06 00.00.0000: Pinhais-PR
00 31.12.2011: (1350) – R$ 35.523.497,52
07 00.00.0000: Russas-CE
08 00.00.0000: Brasília-DF
09 00.00.0000: Carmo do Cajuru-MG
10 00.00.0000: Belém-PA
11 00.00.0000: Mauá-SP
00 31.12.2012: (1455) – R$ 81.594.699,72
12 00.00.0000: Aparecida de Goiânia-GO
13 00.00.0000: Franca-SP
14 00.00.0000: São Paulo-SP
00 31.12.2013: (1560) – R$ 56.169.465,02
15 00.00.0000: Maceió-AL
16 00.00.0000: Teofilândia-BA
17 00.00.0000: Curitiba-PR
18 00.00.0000: Palotina-PR
00 31.12.2014: (1665) – R$ 65.823.888,16
19 00.00.0000: Brasília-DF
20 00.00.0000: Santa Rita do Trivelato-MT
21 00.00.0000: São Paulo-SP
22 00.00.0000: São Paulo-SP
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00 Ganhadores por Estado:
00 6 - São Paulo
00 4 - Paraná
00 3 - Distrito Federal
00 2 - Minas Gerais
00 1 - Espírito Santo
00 1 - Ceará
00 1 - Pará
00 1 - Goiás
00 1 - Alagoas
00 1 - Bahia
00 1 - Mato Grosso
22
00 Total do Prêmio da Mega da Virada:
00 2009 – R$ 144,9 milhões
00 2010 – R$ 194,3 milhões
00 2011 – R$ 177,6 milhões
00 2012 – R$ 244,7 milhões
00 2013 – R$ 224,6 milhões
00 2014 – R$ 263,2 milhões
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22 dezembro 2014

18 dezembro 2014

Maratonista Centenário

O que você faria se, aos quase 90 anos, perdesse sua esposa e um filho? Enquanto que a maioria de nós iria sucumbir à depressão e às dificuldades da idade, o indiano Fauja Singh decidiu ir para a Inglaterra e lá encontrou na corrida uma forma de aliviar seus traumas e tristezas. Dos 89 anos aos 102, ele venceu provas de 10 km, 20 km e finalizou maratonas em diversos lugares do mundo, provando que a idade é mais do que relativa.
Fauja Singh nasceu com uma deficiência que o impediu de andar até os cinco anos de idade e, apesar de ser vegetariano e cuidar de seu corpo, nunca havia praticado esportes com afinco. Foi ao encontrar Harmander Singh, seu técnico e mentor, já na Inglaterra, que começou a correr e a levar as provas a sério. Em 2003, aos 92 anos, ele completou a Maratona de Toronto, no Canadá, em apenas 5 horas e 40 minutos. Oito anos depois, ele cruzou a mesma linha de chegada para ser o primeiro maratonista centenário do mundo – ele só não foi reconhecido pelo Guiness World Records pois não possui uma certidão de nascimento, embora em seu passaporte conste a idade.
O indiano, que ficou conhecido nas provas como O tornado de turbante”, devido ao turbante Sikh que utiliza, decidiu se aposentar aos 102 anos, após correr uma prova de 10 km em Hong Kong, na China. Todas as provas em que ele participou em sua curta, porém intensa, carreira como maratonista eram voltadas para organizações de caridade. Há duas coisas nobres a se fazer na vida: uma é fazer caridade e a outra é cuidar de seu corpo“, afirma Fauja, que hoje, aos 103 anos, limita-se a caminhar de 3 a 4 horas por dia.

16 dezembro 2014

Sexo e o Boi sem Coração

- Não é um boi!
- Eu sei, não sou um boi, sou um touro reprodutor.
- Não é isso. Para. Sai de cima de mim. Eu descobri. Não é um boi. Sempre interpretaram a música errado.
- Você enlouqueceu de vez. O que é que está acontecendo? A gente quase nunca transa. Quando enfim acontece você para tudo e fala de música?
- É sério. Não sei como tive esse insight só agora, mas é esclarecedor. Não é um boi. Deve ser um caminhão, uma moto, qualquer coisa, mas não é o boi que todo mundo sempre pensou que fosse.
- Você está tendo algum tipo de alucinação? Que história é essa de boi, moto, caminhão?
- É simples. Você lembra da música Menino da Porteira?
- Essa música tem uns 100 anos, mas é claro que lembro.
- Lembra do trecho "quem matou o meu filhinho foi um boi sem coração"? Pois é, não é um boi. É uma metáfora. O boi sem coração não é um boi, é uma máquina. Por isso é que eu digo que foi uma moto, um caminhão. Entende o que eu digo? As pessoas não chamam moto de cavalo de aço? Pois é, o boi sem coração também é uma máquina. Se fosse mesmo um boi, não teria feito aquilo. O menino conhecia todos os bois, os bois conheciam ele, por que o matariam? Mas não foi um boi. Como é que ninguém nunca pensou nisso?
- Você está louca. Nós transamos a cada 15 dias, sempre às terças, porque é nas quartas que você pode acordar mais tarde. Você impôs essa regra e eu aceitei. Hoje é a segunda vez que estamos fazendo amor neste mês. Eu estava gostando. Estava aproveitando esse momento e você pensando numa música caipira do século passado?!
- Esquece o resto. Você também não acha que não pode ser um boi?
- O que eu acho é que você é uma vaca! Se você não gosta de sexo, é só dizer. Primeiro impõe esse cronograma ridículo, depois no meio da escassa oportunidade de se entregar fica pensando num boi. Você deve ser frígida. Esse seu boi foi um grande argumento para acabar com tudo. Para cortar esse raro sexo entre nós dois. Mas precisava de toda essa encenação? Era só falar, estou com dor de cabeça, dor nas pernas, dor nas juntas, dor no diabo que a carregue.
- Eu não entendo por que você está tão bravo. É por que a descoberta não foi sua, seu sabe-tudo?
- Você está louca. Você e seu boi, sua moto, sua máquina.
- Amorzinho. Não fica assim. Eu tive uma revelação durante o sexo. Isso não é ótimo? Vem aqui. Isso significa que vamos ter que repetir isso várias vezes. Todo dia. Muitas vezes ao dia. Há muitos mistérios a solucionar. Imagina descobrir o que é "zabelê, zumbi, besouro", o que significa "açaí, guardiã, zum de besouro, um imã", por que o lobo alimenta a matilha... As oportunidades são ilimitadas só na MPB...
- Pensando bem. Acho que gostei desse boi.

14 dezembro 2014

Negro Amor

Negro Amor
(Gal Costa)
Vá, se mande, junte tudo que você puder levar
Ande, tudo que parece seu é bom que agarre já
Seu filho feio e louco ficou só
Chorando feito fogo à luz do sol
Os alquimistas já estão no corredor
E não tem mais nada negro amor
A estrada é pra você e o jogo e a indecência
Junte tudo que você conseguiu por coincidência
E o pintor de rua que anda só
Desenha maluquice em seu lençol
Sob seus pés o céu também rachou
E não tem mais nada negro amor
Seus marinheiros mareados abandonam o mar
Seus guerreiros desarmados não vão mais lutar
Seu namorado já vai dando o fora
Levando os cobertores, e agora?
Até o tapete sem você voou
E não tem mais nada negro amor
As pedras do caminho deixe para trás
Esqueça os mortos que eles não levantam mais
O vagabundo esmola pela rua
Vestindo a mesma roupa que foi sua
Risque outro fósforo, outra vida, outra luz, outra cor
E não tem mais nada negro amor... 

12 dezembro 2014

Feito a Mão

Era velório, mas ele não continha o sorriso de orgulho – pela missão enfim cumprida, pelo produto e por atender a um ídolo.
O morto era o centroavante local, glória do cenário esportivo do município e microrregião, como estava na coroa de flores.
Adoecera longamente. Sabia-se o desfecho havia algum tempo.
Ele, que ali vira nascer e ali dera leito a tantos que morreram, tendo sido admirador do artilheiro, prometera o caixão à família.
De graça. O mais bonito. Trabalhado em marchetaria, mosaico de cubos, triângulos e sombras de sucupira, angelim, canela, parajú, bicuíba, cedro, mogno, cerejeira, gonçalo-alves, roxinho, jatobá, jequitibá, currupichá, marfim, angico, peroba e jacarandá, em tabuleiros, claro-escuros, torneamentos, no formão, na entalhadeira, no canivete, no sopro, na lixa, na flanela.
O forro de feltro e seda. As alças douradas. O vidrinho jateado do último três-por-quatro na tampa.
Com todo o capricho permitido pelo tempo da doença. Com todos os arremates, enfeites e detalhes que, a cada dia, a cada jogada rememorada, ele achava justo acrescentar.
Um gol decisivo, um rococó aqui.
Um lance heroico, um refinamento lá.
Os melhores recortes e retalhos, ripas e tábuas, ferpas, palitos, pontinhas, fiapos, de todas as madeiras que tinha.
Virou sua obra-prima.
E a chance de se recuperar da decepção sofrida, há quase cinquenta anos, no conto do José Cândido de Carvalho, quando, em igual empreitada, o doente se recuperou, causou-lhe prejuízo e decepção e, claro, mereceu seus desaforos e o despedaçamento do féretro no meio da praça.
Agora, não. Neste conto, ele tem a chance revivida na nova morte. E não só de um amigo, para satisfação particular, mas de um ídolo do pacato e ordeiro povo da municipalidade.
Ali na capela, no velório, sorrindo, notava os olhos na madeira, na cistina em que o centroavante jazia.
E sentiu o bem-estar geladinho que imaginou ser o mesmo que o artilheiro sentia quando o público o admirava.
Pensou que sua obra e a do jogador eram de igual dimensão, aparentadas, até. Ainda trocadilhou “primas” em silêncio, em cócega muda.
Ambos eram artistas.
Deviam ser sempre vistos e glorificados.
Resolveu pedir a palavra. Modestamente sugeriu o embalsamamento do artilheiro, com a camisa nove da agremiação citadina, enfatizou, dentro do humilde féretro por ele dado à luz, no saguão da Prefeitura ou da Igreja, ou na entrada do estadinho em que ele pontificara radiante em prol de nossas cores, tenho dito.
Houve uma marolinha de sussurros pra lá, que voltou nas mesmas amplitude e frequência pra cá, até ser parada pelo padre, que agradeceu e negou a proposta.
Deus do céu!
Foi um estalo. Um talho. Um golpe.
Agitou-se, suou, tossiu.
Quando saíam com sua obra e o morto, desesperou-se, correu, parou do lado, abriu a tampa, virou o caixão entornando o campeão na terra, gritou para que largassem as alças, vermelho, salivando, saiu arrastando o caixão xingando alto coisas que ninguém entendeu, até porque tiveram que se recompor e levar o artilheiro numa maca até a cova já aberta ali perto.
Guardou o caixão no depósito, imune a poeira e sol.
Está lá, à espera de outro conto, de outro contista, que o deixe terminar a história como merece.
Pra mulher diz que centroavante sempre aparece outro. Caixão como aquele, não.
E contista, conclui, é o que não falta.
(Texto de Luiz Guilherme Piva)

09 dezembro 2014

Eu Amo Você


Eu Amo Você
(Amado Batista)
Eu vou estar sempre em sua vida
Não aceite outra previsão
Mesmo que algum sábio profeta lhe diga que não
Cuidado com histórias de revistas
Não se liga em papo de TV
Nossa realidade é diferente
Eu amo você
Jamais me passou na imaginação
A idéia de não ter você
No meu coração está escrito assim
O amor nunca vai ter fim