11 fevereiro 2016

Chapéu de Credibilidade

Toda a sociedade contemporânea está sendo sacudida com as mudanças tecnológicas. É verdade que esse não é um fenômeno novo na história da humanidade, mas nunca foi tão intenso nem provocou tanto tremor nas estruturas existentes. Ele coincide com as mudanças do sistema capitalista. Sua expressão política, a globalização, atingiu o mundo todo com a queda da União Soviética, seus satélites e a adesão da China, que era comunista. Hoje, ela tem bolsa de valores, bilionários, trabalho assalariado, grandes marcas de consumo globais e se estrutura como a segunda maior economia do planeta.
Todos participam do World Economic Forum, a peregrinação anual de gestores, acionistas, governantes, simpatizantes ao templo do capital. A discussão das ideias e apresentações ganhou maior visibilidade graças a essa mesma tecnologia. Em vez de estar hermética em poucos espaços de divulgação, as múltiplas plataformas, abertas na era da internet, ativam o debate público, e acelera a discussão desses e outros temas da atualidade. Acentua a fiscalização do exercício do poder. Com isso, caiu o poder de alguns veículos e jornalistas que concentravam a maior parte das informações. Houve uma democratização do conhecimento do que se passa no mundo. Essas mudanças são turbinadas com o desenvolvimento de uma sociedade de custo marginal próximo de zero e representa o trunfo máximo do capitalismo.
Cabe ao público selecionar no cipoal digital o que quer ler e se inteirar. Está tudo à sua disposição. Supor que ele só aceita a última fofoca publicada no Facebook é uma distorção e subestimar o seu espírito crítico. O papel de watchdog do Estado deixou de pertencer a uma oligarquia e se abriu para os cidadãos com ou sem um diploma de jornalista. Há uma verdadeira matilha. Há mesmo um questionamento radical constante por parte do público, o que incomoda tanto os fiscalizados como aqueles que se sentem acompanhados do interesse de tantos cidadãos nas questões públicas. O fato das empresas jornalísticas viverem uma crise no seu modelo de negócio, mesmo com a demissão de jornalistas, mostra que invariavelmente avanços tecnológicos quebram monopólio de mercado.
O direito de ser informado ganhou uma nova dimensão com a profusão de fontes e dos compartilhamentos digitais inexistentes até então. O mundo não corre o risco de ver oligopólios, como no passado, de manipular, esconder ou plantar informações falsas. Há muitos mais fiscais de plantão. E com isso a quebra de paradigmas, que segundo Thomas Kuhn é um sistema de crenças e hipóteses que atuam juntas para estabelecer uma visão integrada e unificada do mundo, tão convincente e atraente que é considerada um equivalente da realidade propriamente dita.
No novo campo da informação vai sobreviver quem tiver um chapéu de credibilidade. Não importa se é um grande conglomerado de mídia ou um simples blog pessoal. O público vai continuar julgando pela qualidade jornalística em qualquer plataforma. Não se sabe mais onde estão os acionistas dos grandes veículos que eram contatados para segurar uma notícia ou mudar o rumo de uma investigação jornalística. É verdade que ocorre no meio o que Keynes chamou de desemprego tecnológico. Ou seja, devido ao fato de novas descobertas de meios para economizar o uso da mão de obra supera o ritmo em que encontramos novos usos para essa mão de obra.
O número de postos de trabalho nas redações encolheu sensivelmente, o que provoca o temor que a qualidade do jornalismo necessariamente também caiu. É uma leitura enganosa. O público busca as marcas e nomes apoiados na credibilidade e na ética. Não acredita em qualquer boato ou rumor publicado não se sabe por quem ou mesmo compartilhado entre os amigos. Invariavelmente, ele vai confirmar nas fontes e veículos que ao longo dos anos construíram na sua percepção o compromisso com a verdade.
(Texto do jornalista Heródoto Barbeiro)

09 fevereiro 2016

07 fevereiro 2016

Arrependimento

Sempre uma desculpa. “Furou o pneu da bicicleta”, “a fila estava muito grande”, “o cliente demorou a me atender”, “foi difícil achar o endereço”, “ninguém sabia quem era o cara”.
Mas era a pelada.
Ele saía pra fazer cobrança e não resistia. Via um campinho, um espaço qualquer em que jogavam bola, e logo parava a bicicleta, amarrava a pastinha de notas no bagageiro e entrava no jogo. No mínimo uma hora.
Chegar suado era normal: rodava a cidade pedalando. O lote grande de cobranças também justificava alguma demora.
Mas os atrasos estavam aumentando. As desculpas se repetindo. E o pior: os resultados das cobranças eram baixos, quase nulos.
Da última vez voltou só à noite. A firma já estava fechada. De manhã o chefe o chamou pra demiti-lo.
Ele abriu o jogo.
Era um campinho lindo, num bairro que ele não conhecia. Grama natural, bica do lado, traves de bambu com travessão, farrapos de rede, sombra farta, bola nova, molecada boa de bola, faltava um pra inteirar – ele não poderia impedir o jogo.
E mais, chefe, foi um jogaço! Escurecendo, empatado em oito a oito. Quem fizesse ganhava.
Não podia parar. Questão de honra. Ninguém enxergava mais nada, mas nem pensava em parar.
E eu fiz o gol decisivo!
Foi uma festa! Abraços, sanduíches, guaraná, risos encharcados de suor, todo mundo junto, dos dois times.
Mas o senhor está certo.
Onde eu assino?
O chefe se levantou, rodou a sala com as mãos nas costas. Entregou a ele o papel para que assinasse. Recolheu a pastinha com as cobranças – nenhum recebimento, como sempre.
Sozinho na sala, sentiu dó do garoto; pensou que a demissão era um castigo exagerado.
Mas disse para si mesmo que a vida é dura.
Que a gente precisa aprender na dor e na perda.
E fingiu que estava coberto de razão.
Mas estava arrasado.
Queria largar tudo e correr pro campinho.
Chamar o garoto para ir com ele.
Chupar manga, lavar o rosto na bica, comer pão com mortadela e, acima de tudo, jogar bola livre, sem regras, sem hora, até anoitecer.
Isso foi há muito tempo.
Ele ficou mais maduro, mais velho.
E até hoje carrega o pesar em algum nó dolorido na alma.
Mas finge que não sente.
(Texto de Luiz Guilherme Piva)

05 fevereiro 2016

03 fevereiro 2016

Tímida

Lábios com sabor de hortelã
Olhos cor de céu, pele de maçã
Sonho de mulher, se descobriu
Vive uma ilusão que ainda não sentiu
Uh! Uh!
O primeiro amor chegou
Uma nova luz brilhou
Ela se encontrou nesse sonho meu
Oh! Oh! Oh! Tímida!
Um beijo tímido ao luar
Mágica!
A simples mágica de amar
Se despiu da fantasia
Se vestiu de amor
Oh! Oh! Oh! Tímida!
Um beijo tímido ao luar
Mágica!
A simples mágica de amar
Se despiu da fantasia
Me vestiu no sonho desse amor.

01 fevereiro 2016

Sonhos de Menina

Sonhos de Menina:
Um deslumbrante vestido tomara que caia;
Uma calcinha de renda tomara que tirem;
Um sutiã meia-taça tomara que sustente;
Um absorvente tomara que dê conta;
Uma meia-calça tomara que não desfie;
Uma celulite tomara que não percebam;
Um namorado tomara que me ligue;
Um amante tomara que não negue fogo;
E um marido milionário tomara que morra.

29 janeiro 2016

25 janeiro 2016

Cartas Anônimas

As cartas voltaram à moda – ao menos ao noticiário.
Mas são cartas diferentes das cartas de outra época, classicamente relacionadas a amor e saudades.
Como a da história que o Tostão contou há tempos.
Um colega dele do Cruzeiro ou da Seleção, que não sabia escrever, pediu-lhe, numa excursão longa à Europa, que escrevesse uma carta à amada no Brasil.
O Tostão prontificou-se e, caneta e papel em mãos, esperou o ditado. Houve um longo silêncio e o colega então pediu: “escreve umas coisas bonitas, que falem assim de estrelas, de eternidade”.
Muitas cartas de amor eram anônimas. Como as que, numa cidadezinha do interior, um goleiro começou a receber.
Toda semana o vigia do campo lhe trazia o envelope deixado sob o portão.
Declarações de amor, promessas, elogios, suspiros – e até, talvez, estrelas e eternidade.
Cartas com perfume. Com desenhinhos de coração. Com a letra bordada.
Diziam sempre que a autora estaria no próximo jogo só para vê-lo.
Ele passava o jogo olhando pro alambrado, pros degraus da torcida, pra laje atrás do seu gol, tentando achar um rosto, um sorriso, um olhar que denunciassem a missivista.
Nada.
Sofria a cada jogo.
A consequência é que os gols tomados aumentaram.
Todo jogo uma ou duas falhas.
Acabou afastado do time titular.
E as cartas cessaram.
No banco de reservas, seguia a busca com os olhos, agora mais agoniado.
Perguntava ao vigia, mas nenhum envelope chegava.
Até que chegou uma. Mas o vigia lhe disse que era para o novo goleiro titular. Ele a arrancou das mãos do vigia, abriu e leu: a mesma letra, as mesmas palavras, o mesmo perfume, os coraçõezinhos, as juras, as declarações.
Uma punhalada.
Mas deduziu que, de duas, uma: ou a autora gostava mesmo é de goleiro em ação, ou alguém, adversário, fazia aquilo para distraí-los.
Deixou as novas cartas chegarem ao seu substituto. Que, do mesmo modo, começou a tomar gols fáceis e perdeu a posição.
De volta ao gol titular, proibiu o vigia de lhe entregar as cartas que chegassem. Era pra rasgar e queimar – “para não sofrer mais”, disse.
E nunca mais saiu do time.
Mas até hoje sente uma saudade imensa daquelas palavras, daquele perfume, daqueles desenhos.
À noite, relê as cartas antigas e fica, comovido, olhando as estrelas e pensando na eternidade.
(Texto de Luiz Guilherme Piva)

23 janeiro 2016

Pioneiros

000 Primeiros Patrocínios do Futebol Brasileiro: 000
001 BotafogoAtlantic (Combustíveis) – 1985
002 Atlético MineiroCredireal (Banco) – 1982
003 CorinthiansBombril (Lã de aço) – 1982
004 CruzeiroMedradão (Supermercado) – 1984
005 Flamengo Lubrax (Lubrificantes) – 1984
006 FluminenseMondaine (Relógios) – 1984
007 GrêmioOlympikus (Artigos Esportivos) – 1982
008 InternacionalAplub (Previdência Privada) – 1983
009 Palmeiras Bandeirantes (Seguros) – 1983
010 Santos Casas Bahia (Rede de Varejo) – 1983
011 São PauloCofap (Amortecedores) – 1982
012 Vasco Bandeirantes (Seguros) – 1983

21 janeiro 2016

Formato Inusitado

A cidade de Chiayi, em Taiwan, ganhou uma igreja no formato de um sapato de salto alto.
A estrutura de vidro azul levou três meses para ficar pronta, a um custo de US$ 685 mil.
Ela tem cerca de 17 metros de altura e 11 metros de comprimento.
A inauguração deve ocorrer em fevereiro, antes do Ano Novo Lunar.
A ideia é usar a igreja para casamentos e para fotografias, mas não para serviços religiosos normais.

19 janeiro 2016

Futebol Imaginário

Proibiram o bate-bola do intervalo.
Era num espaçozinho ao lado da cantina, com uma dente-de-leite furada que ficava guardada no quartinho de limpeza.
Uns seis ou oito alunos sempre se juntavam e jogavam bobinho, controle, chute a gol (desenhado com giz na parede) ou todos contra todos, simplesmente cada um por si driblando, correndo, chutando.
Alegaram barulho. Um vidro quebrado na sala do bedel. Atropelos de outros alunos. Duas meninas reclamaram de terem sido atingidas pela bola – uma delas teve os óculos entortados.
Proibiram. E sumiram com a bola.
Ficaram perdidos por uns dias. Mãos nos bolsos, conversa fiada, o intervalo sem graça, sem fim, sem sentido.
Até que – nenhum deles lembra por que nem como – começaram a jogar sem bola.
Como no “air guitar”.
Todos os dias. No mesmo local, ao lado da cantina.
Moviam-se, tocavam, controlavam com os pés e a cabeça, driblavam, chutavam a gol, tudo como se houvesse de fato a bola entre eles.
Não fingiam. Jogavam mesmo.
Sabiam os percursos da bola, as sequências, o balé que os lances produziam, as posições do corpo, os olhares, a geometria dos passes, o novelo dos dribles, os pesos, as medidas, tudo – de modo tão autêntico que faziam crer que, quando havia a bola, ela era só coadjuvante, prescindível ao jogo que eles jogavam.
Transformavam o ato real de jogar com a bola em mímica, ao avesso do jogo de verdade, que era aquele que desenhavam somente com seus corpos e a bola invisível.
Os outros ficavam olhando. Aliás, ficava todo o resto do colégio olhando. Alunos, professores, funcionários e quem mais ali estivesse.
No início com estranhamento. Rindo um pouco. Depois, com interesse.
Com o tempo, já seguindo os lances, torcendo, orientando as jogadas, lamentando ou comemorando um lance.
Às vezes até protegiam o rosto e o corpo quando a bola imaginária aparentava vir na sua direção.
E eles, jogando, nem percebiam que eram objeto de observação.
Saíam suados, comentando as jogadas, discutindo por um lance, vibrando.
Alguém na diretoria achou que o transtorno estava maior do que quando eles usavam a bola. Convenceu os demais e deixaram, cedinho, a velha dente-de-leite no pátio, no espaçozinho ao lado da cantina.
No intervalo, eles chegaram e a viram. Olharam-se.
A turma, enorme, na assistência, muda, frustrada com o provável fim do show diário, começou a se dispersar, cada um para seu canto.
Eles pegaram a bola, começaram as embaixadas, os chutinhos, os dribles e retomaram seu antigo jogo real.
Mas, numa parada momentânea, para amarrar o tênis, um deles viu e apontou pra os outros: todo o resto do colégio, em grupos grandes e pequenos, jogava o futebol imaginário que eles haviam jogado nas últimas semanas.
Rodinhas, bolinhos, duplas, times, correrias, meninas, meninos e funcionários, até o bedel sozinho simulando embaixadas – o colégio todo praticava o jogo sem bola, com movimentos, chutes, passes, dribles, trocas de passes e todo o repertório que o corpo sabe usar para jogar bola, havendo ou não alguma para ser jogada.
Eles pararam, deixaram a dente-de-leite no canto e ficaram assistindo aquelas dezenas de jogadores enchendo o pátio com a dança e os sons do futebol.
Como num show em que toda a plateia de repente começasse a tocar no ar a mesma música que o artista solava sozinho no palco numa guitarra imaginária.
(Texto de Luiz Guilherme Piva)

17 janeiro 2016

O Troco

Um milionário, de passagem por São Paulo, entra no luxuosíssimo restaurante e senta no piano bar.
Chama o Chef, pede uma dose de uísque Royal Salute e reserva uma mesa para jantar.
Após a quarta dose indica ao Chef que irá para a mesa, sendo atendido prontamente.
Sentado, consultando o menu sem preços, se surpreende quando o Chef, em pé ao seu lado diz:
- Doutor, é política da casa informar aos clientes o valor das contas separadas da mesa, no seu caso a do piano bar: sua despesa foi de R$ 0,60.
- Acho que houve um engano. Eu tomei quatro doses de Royal Salute.
- Com todo o respeito, nós nunca nos enganamos: quatro doses a 0,15 centavos cada dá exatamente 0,60 centavos.
- Tudo bem, não quero discutir, vamos à comida, anote, por favor...
- Sim senhor. O que gostaria de comer?
- De entrada, eu quero caviar da Ucrânia com lentilhas finlandesas; depois Salmão da Escandinávia com recheio de gengibre sul-africano e batatas inglesas douradas em queijo de cabras francesas. Ah! E para beber, um Rotchilld safra 1891.
- Ótima escolha Doutor, mas cabe a mim como chef, alertá-lo que isso ficará um pouco caro.
- Olha amigo, primeiro eu não perguntei o preço e, segundo, estou achando que isso aqui é uma casa de malucos, mas já que você quer, fale.
- Pois não Doutor, o seu pedido vai ficar em R$ 9,50.
- Você está querendo me sacanear? Cadê o dono dessa espelunca?
- Está lá em casa com a minha mulher.
- E o que é que ele está fazendo em sua casa com a sua mulher?
- O mesmo que eu estou fazendo aqui com o restaurante dele...