22 março 2016
19 março 2016
17 março 2016
15 março 2016
Jogo Perfeito
Imaginava o jogo perfeito.
Dois times só de
craques, todos executando suas funções no extremo da perfeição, acertando todos
os passes e lançamentos, todos os dribles, cruzamentos, chutes, atacando e
voltando, alternando posições, como duas companhias de balé se misturando no
palco em articulada coreografia, se entremeando, aproximando, afastando,
misturando, distribuindo-se, aglomerando-se, formando arranjos em torno da bola
sem nunca ninguém errar nada.
Sabia que não daria certo. Porque os zagueiros também não
falhariam. Nem os goleiros. Todos seriam espetaculares.
E, com isso, não
haveria gols.
Seria um futebol maravilhoso, mas intransitivo.
O futebol
conceitual. Platônico. Metafísico.
Mas sem gol.
E futebol sem
gol não serve para nada.
Exceto para fruir na imaginação.
Mas era o que
ele gostava.
#
13 março 2016
De Calcanhar
Igualmente magro
e alto, ele tinha visto uns lances do Sócrates e começou a dar passes de
calcanhar. Errava feio (o passe e, muitas vezes, a própria bola), mas fazia o
tendu elegante como o Doutor.
Mais lances ele
via na TV, mais ele imitava. Pelo alto, rasteiro, pra frente, pra trás – às
vezes, virava-se só pra executar o passe.
Errava todos. Travava o ataque. Matava as tabelas.
O pessoal da
pelada foi se enchendo. Ele insistia.
Reclamavam. Nada.
Xingavam. Nem
aí.
Ameaças. Seguia tentando.
Até que um dia
ele conseguiu o espantoso.
Do meio de campo, de costas para o seu ataque, recebeu a
bola, abriu as pernas e, sem virar a cabeça – afinal, era um bailarino –, de
primeira, deu o passe de calcanhar certeiro qual uma tacada de sinuca.
A bola foi como
um rastilho em meio aos adversários e encontrou o atacante lá na área se
deslocando na cara do gol – foi só tocar e sair, com todo o time, atrás do
autor do passe para abraçá-lo.
Mas ele, blasé, fez que não ligava. Recusou os abraços.
Afastou-os com o olhar e os gestos severos.
E parou.
Nunca mais tentou o lance.
Ninguém
entendeu.
Todos supunham que ele queria deixar imortalizado o lance.
Como se qualquer novo erro viesse a esfarelar a obra-prima.
Mas não
perguntavam temendo que ele voltasse com a mania.
#
11 março 2016
Saudade Matadeira
A Saudade Mata A Gente
(Pena Branca & Xavantinho)
#
#
Fiz meu rancho na beira do rio
Meu amor foi comigo morar
E nas redes nas noites de frio
Meu bem me abraçava pra me agasalhar
#
Mas agora meu bem foi-se
embora
Foi-se embora e não sei se
vai voltar
A saudade nas noites de frio
Em meu peito vazio virá se
aninhar
#
A saudade é dor pungente, morena
A saudade mata a gente, morena
#
09 março 2016
07 março 2016
Fim de Jogo
Jogavam todos os dias.
Quase sempre no campinho que depois virou igreja. Mas também
num terreno inclinado perto do rio. E num terrão de uma fábrica fechada. Uma
vez até no campo do time do bairro, invadido à noite: jogaram no escuro, só a
lua e os postes do lado de fora, com o gozo da grama rente, as marcas de cal,
as traves brancas e a gravidez da rede a cada gol.
Todos os dias.
Chuva, sol, barro, areia. Depois da aula, no início da
noite, de manhã cedinho, na hora do almoço, quando desse. Iam se juntando, um
falava pro outro, que avisava outro, que encontrava mais um, quando dava deixavam
marcado pro dia seguinte, mas nem precisava.
Agora, olhando o
computador, ele se lembra de quase tudo.
Muitos gols, muitas brigas, broncas dos pais, verrugas
sangrando no joelho, pés cortados que geraram ínguas, o cheiro do suor na
terra, a chuva domando o véu da poeira até o chão, as lascas de couro se
soltando da bola, os córregos.
E o rosto de
cada um.
Como um desfile de fotogramas acendendo e apagando
rapidamente.
Um por um.
Lembra que paravam de jogar à medida que cresciam. Que os
que iam ficando mais velhos iam deixando de comparecer e sumiam. Que ele era
dos mais novos e ficou muito tempo – mas que também deixou de jogar enquanto
outros ficavam.
Um golaço que
todos elogiaram. Um frango de um amigo que quase os levou aos socos. Uma bola
nova. A primeira vez de kichute. Vidros quebrados. Insolações. Água na
mangueira ou na bomba.
Na frente do computador põe no Google os poucos nomes
completos de que se lembra. Não acha nada – ninguém é conhecido o suficiente.
Sem redes sociais – nem sabe mexer –, não tem outra forma de procurar.
Se lembrasse de
outros nomes. Se morassem na mesma cidade. Se não tivessem se dispersado. Se
não tivessem parado de jogar à medida que ficavam maiores.
Por quê não continuaram?
Bastava seguir
jogando todos os dias.
Os dias e os anos teriam se passado. Estariam velhos do
mesmo jeito que estão hoje. Alguns já teriam morrido como certamente ocorreu.
Mas todos
saberiam onde cada um esteve todo esse tempo e onde cada um está agora.
Como sabiam quando jogavam. Quase sempre sem nem combinar
– será que ainda tem lá a igreja?
E mesmo assim se
encontravam jogavam e no dia seguinte jogavam e no dia seguinte de novo e no
dia seguinte outra vez até que um ficava mais velho e não ia mas outro mais
novo começava e todos seguiam jogando.
Quando é que a gente ficava velho e saía? Que momento da
idade era o de sair? Quando sabiam disso?
Se tivesse uma
lista telefônica da cidade. Será que existe lista? Mas, se existir, como
arrumar uma lista telefônica de uma cidade pequena do outro extremo do país?
Quando é que os jogos pararam?
Quanto tempo
mais duraram os jogos depois que ele saiu?
A tela do computador brilha fraca no seu rosto. É a única
luz na noite da sala. Silêncio dentro e fora da casa.
Como naquela
noite no campo.
Só que agora sozinho, sem gozo, sem bola, sem grama, sem
rede.
Sem os
companheiros das peladas.
Só ele.
Não.
Ele e o tempo.
(Texto de Luiz Guilherme Piva)
05 março 2016
Milho Aos Pombos
Milho Aos Pombos
(Zé Geraldo)
#
Enquanto esses comandantes
loucos ficam por aí
Queimando pestanas
organizando suas batalhas
Os guerrilheiros nas alcovas
Preparando na surdina suas
mortalhas
#
A cada conflito mais
escombros
Isso tudo acontecendo
e eu aqui na praça
Dando milho aos pombos
#
Entra ano, sai ano, cada vez
fica mais difícil
O pão, o arroz, o feijão, o
aluguel
Uma nova corrida do ouro
O homem comprando da
sociedade o seu papel
#
Quando mais alto o
cargo maior o rombo
Isso tudo acontecendo
e eu aqui na praça
Dando milho aos pombos
#
E eu dando milho aos
pombos no frio desse chão
Eu sei tanto quanto
eles se bater asas mais alto
Voam como um gavião
Tiro ao homem, tiro ao
pombo
Quanto mais alto voam
maior o tombo
#
Eu já nem sei o que mata mais
Se o trânsito, a fome ou a
guerra
Se chega alguém querendo
consertar
Vem logo a ordem de cima:
Pega esse idiota e enterra!
#
Todo mundo querendo
descobrir seu ovo de Colombo
Isso tudo acontecendo
e eu aqui na praça
Dando milho aos pombos...
03 março 2016
Plágio
“O plágio está na base de todas as literaturas,
salvo da primeira, que, aliás, é desconhecida”
JEAN GIRAUDOUX,
escritor francês (1882-1944)
#
01 março 2016
Futebol Eterno
O ônibus do time teve que parar ali. Um povoado – de uma
ponta à outra, oito postes na estrada, com umas dez ruelas de cada lado.
Tinha caído uma
barreira adiante. O motorista entrou numa das vielas e parou. Em volta juntou
muita gente, sobretudo crianças.
Estavam acostumados com o movimento. Só que ninguém
parava. Apenas um ou outro, no quebra-molas, pra comprar queijo ou minhocuçu.
Para as crianças
aquilo era um espanto: o ônibus brilhante, grande, o escudo do time na lateral,
os jogadores como figurinhas de álbum olhando pelas janelas.
Dez da manhã. O jogo, na cidade a 200 quilômetros à
frente, seria à noite. Tempo calculado pra chegar, almoçar e treinar.
A criançada viu
os jogadores descendo. Era como um filme, uma tela enorme, um sonho.
Os jogadores e a comissão técnica ficaram conversando,
aguardando informações. Com a demora, aceitaram almoçar, em grupos de dois ou
três, nas casas dos moradores. Em cada uma as crianças entupiam a porta para
vê-los.
Chegou a notícia
de que a estrada só seria liberada no final da tarde, na conta certa de chegar
pro jogo.
O técnico e o preparador perguntaram se tinha campo.
Tinha. A criançada os guiou por entre as casas, pela trilha perto do riacho,
até chegarem ao local.
Era plano, todo
gramado, traves de ferro velhas, uns dois formigueiros.
E aí o espetáculo.
Os jogadores se
exercitando, correndo, batendo bola, chutando a gol.
Os goleiros de luvas, calções almofadados, joelheiras e
cotoveleiras.
As crianças
dentro do estádio.
Mais: dentro do jogo que só existia na televisão. Tinham
transposto a tela e não havia mais fronteira.
O mundo todo era
ali. O tempo sem fim era aquele.
O surdo do chute. O chiado na bola na grama. As travas
rinchando. O gongo da bola na trave – e o céu, o ar, o sol, os corações
marretando o peito, as nuvens, a bola, os heróis em desfile como enormes
alazões em órbita no universo.
De repente um
enorme clarão se instaurou.
Tudo explodiu em branco.
E nunca mais
elas viram nada.
Consertaram a estrada, o ônibus foi embora e de noitão
passou de volta com as crianças já dormindo.
Mas elas não se
lembram de nada depois do clarão.
Até hoje.
Pra onde elas
olham só veem uma luz cheia de sons: do chute, do quique, das defesas, do
gongo, do chiado, do relincho.
E assim será.
Elas nunca mais
verão a vida preenchendo a geografia entre o primeiro e o oitavo poste, as
ruelas, as casas e os seus próprios corpos.
Jamais voltarão do limiar que atravessaram, da dimensão em
que os jogadores e as bolas, por algumas horas, formaram uma galáxia da qual
elas para sempre acreditarão ser o centro.
(Texto de Luiz Guilherme Piva)
25 fevereiro 2016
Adeus Mariana
Adeus Mariana
= (Sérgio Reis)
= Nasci lá na cidade, me casei na serra
= Com a minha Mariana, moça lá de fora
= Um dia estranhei o carinho dela
= Disse: adeus Mariana, que eu já vou embora
É gaúcha de verdade de quatro costados
Só usa chapéu grande de bombacha e espora
E eu que estava vendo o caso complicado
Disse: adeus Mariana, que eu já vou embora
= Nem bem "rompemo" o dia, me tirou da cama
= Celou o meu tordilho e saiu campo a fora
= E eu fiquei danado e saí dizendo:
= Adeus Mariana, que eu já vou embora
Ela não disse nada, mas ficou sismando
Se era desta vez que eu daria o fora
Segurou a açoiteira e veio contra mim
Eu disse: larga Mariana que eu não vou embora
= E ela de zangada foi quebrando tudo
= Pegou a minha roupa e jogou porta a fora
= Agarrei, fiz uma trouxa e saí dizendo:
= Adeus Mariana, que eu já vou embora.
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