05 abril 2016

03 abril 2016

Bailarina

A mulher estava sentada em um bar. Ela era do tipo liberada, não raspava o sovaco e estava vestida com uma camiseta sem mangas. De 15 em 15 minutos ela levantava um braço pra pedir mais uma cerveja e todo mundo via aquele chumação debaixo do braço da moça. Algum tempo depois um sujeito já bebum entrou no bar. Depois de algum tempo, ele chamou o garçom e falou:
- Eu queria oferecer um drinque àquela bailarina.
- Como é que você sabe que ela é bailarina? - perguntou o garçom.
- Pra levantar a perna naquela altura, só pode ser bailarina!
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01 abril 2016

25 março 2016

Prece do Galinheiro

Ó senhor das aves!
Ajude o nosso galinheiro.
É briga e bicada o dia inteiro.
Tem pena voando pra tudo que é lado.
O galo, coitado, está chocado.
Os penudos estão indo com tudo, rompendo até amizade.
Imploro por um pouco de serenidade.
Ó senhor dos galináceos!
Acalme o povo,
Desse jeito não vai ter ovo!
Envie bom senso e equilíbrio e,
Quem sabe, um pouco de milho.
Pois, olhando daqui do poleiro,
Todo mundo é seu filho.
Conceda paz para galos, galinhas e pintinhos também
E para todos os galinheiros, amém.
(Texto de Ivo Minkovicius)

22 março 2016

19 março 2016

17 março 2016

15 março 2016

Jogo Perfeito

Imaginava o jogo perfeito.
Dois times só de craques, todos executando suas funções no extremo da perfeição, acertando todos os passes e lançamentos, todos os dribles, cruzamentos, chutes, atacando e voltando, alternando posições, como duas companhias de balé se misturando no palco em articulada coreografia, se entremeando, aproximando, afastando, misturando, distribuindo-se, aglomerando-se, formando arranjos em torno da bola sem nunca ninguém errar nada.
Sabia que não daria certo. Porque os zagueiros também não falhariam. Nem os goleiros. Todos seriam espetaculares.
E, com isso, não haveria gols.
Seria um futebol maravilhoso, mas intransitivo.
O futebol conceitual. Platônico. Metafísico.
Mas sem gol.
E futebol sem gol não serve para nada.
Exceto para fruir na imaginação.
Mas era o que ele gostava.
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13 março 2016

De Calcanhar

Igualmente magro e alto, ele tinha visto uns lances do Sócrates e começou a dar passes de calcanhar. Errava feio (o passe e, muitas vezes, a própria bola), mas fazia o tendu elegante como o Doutor.
Mais lances ele via na TV, mais ele imitava. Pelo alto, rasteiro, pra frente, pra trás – às vezes, virava-se só pra executar o passe.
Errava todos. Travava o ataque. Matava as tabelas.
O pessoal da pelada foi se enchendo. Ele insistia.
Reclamavam. Nada.
Xingavam. Nem aí.
Ameaças. Seguia tentando.
Até que um dia ele conseguiu o espantoso.
Do meio de campo, de costas para o seu ataque, recebeu a bola, abriu as pernas e, sem virar a cabeça – afinal, era um bailarino –, de primeira, deu o passe de calcanhar certeiro qual uma tacada de sinuca.
A bola foi como um rastilho em meio aos adversários e encontrou o atacante lá na área se deslocando na cara do gol – foi só tocar e sair, com todo o time, atrás do autor do passe para abraçá-lo.
Mas ele, blasé, fez que não ligava. Recusou os abraços. Afastou-os com o olhar e os gestos severos.
E parou.
Nunca mais tentou o lance.
Ninguém entendeu.
Todos supunham que ele queria deixar imortalizado o lance. Como se qualquer novo erro viesse a esfarelar a obra-prima.
Mas não perguntavam temendo que ele voltasse com a mania.
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11 março 2016

Saudade Matadeira

A Saudade Mata A Gente
(Pena Branca & Xavantinho)
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Fiz meu rancho na beira do rio
Meu amor foi comigo morar
E nas redes nas noites de frio
Meu bem me abraçava pra me agasalhar
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Mas agora meu bem foi-se embora
Foi-se embora e não sei se vai voltar
A saudade nas noites de frio
Em meu peito vazio virá se aninhar
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A saudade é dor pungente, morena
A saudade mata a gente, morena
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09 março 2016

07 março 2016

Fim de Jogo

Jogavam todos os dias.
Quase sempre no campinho que depois virou igreja. Mas também num terreno inclinado perto do rio. E num terrão de uma fábrica fechada. Uma vez até no campo do time do bairro, invadido à noite: jogaram no escuro, só a lua e os postes do lado de fora, com o gozo da grama rente, as marcas de cal, as traves brancas e a gravidez da rede a cada gol.
Todos os dias.
Chuva, sol, barro, areia. Depois da aula, no início da noite, de manhã cedinho, na hora do almoço, quando desse. Iam se juntando, um falava pro outro, que avisava outro, que encontrava mais um, quando dava deixavam marcado pro dia seguinte, mas nem precisava.
Agora, olhando o computador, ele se lembra de quase tudo.
Muitos gols, muitas brigas, broncas dos pais, verrugas sangrando no joelho, pés cortados que geraram ínguas, o cheiro do suor na terra, a chuva domando o véu da poeira até o chão, as lascas de couro se soltando da bola, os córregos.
E o rosto de cada um.
Como um desfile de fotogramas acendendo e apagando rapidamente.
Um por um.
Lembra que paravam de jogar à medida que cresciam. Que os que iam ficando mais velhos iam deixando de comparecer e sumiam. Que ele era dos mais novos e ficou muito tempo – mas que também deixou de jogar enquanto outros ficavam.
Um golaço que todos elogiaram. Um frango de um amigo que quase os levou aos socos. Uma bola nova. A primeira vez de kichute. Vidros quebrados. Insolações. Água na mangueira ou na bomba.
Na frente do computador põe no Google os poucos nomes completos de que se lembra. Não acha nada – ninguém é conhecido o suficiente. Sem redes sociais – nem sabe mexer –, não tem outra forma de procurar.
Se lembrasse de outros nomes. Se morassem na mesma cidade. Se não tivessem se dispersado. Se não tivessem parado de jogar à medida que ficavam maiores.
Por quê não continuaram?
Bastava seguir jogando todos os dias.
Os dias e os anos teriam se passado. Estariam velhos do mesmo jeito que estão hoje. Alguns já teriam morrido como certamente ocorreu.
Mas todos saberiam onde cada um esteve todo esse tempo e onde cada um está agora.
Como sabiam quando jogavam. Quase sempre sem nem combinar – será que ainda tem lá a igreja?
E mesmo assim se encontravam jogavam e no dia seguinte jogavam e no dia seguinte de novo e no dia seguinte outra vez até que um ficava mais velho e não ia mas outro mais novo começava e todos seguiam jogando.
Quando é que a gente ficava velho e saía? Que momento da idade era o de sair? Quando sabiam disso?
Se tivesse uma lista telefônica da cidade. Será que existe lista? Mas, se existir, como arrumar uma lista telefônica de uma cidade pequena do outro extremo do país?
Quando é que os jogos pararam?
Quanto tempo mais duraram os jogos depois que ele saiu?
A tela do computador brilha fraca no seu rosto. É a única luz na noite da sala. Silêncio dentro e fora da casa.
Como naquela noite no campo.
Só que agora sozinho, sem gozo, sem bola, sem grama, sem rede.
Sem os companheiros das peladas.
Só ele.
Não.
Ele e o tempo.
(Texto de Luiz Guilherme Piva)