07 maio 2016

Passou

Primeiro, lembra-se de, pequeno, ficar pulando como goleiro no chão da garagem. Seu pai chutava e ele se exibia em pontes inimagináveis.
Depois, de ele chutar pro filho pequeno espalmar como acrobata na grama da praça.
Agora não defende nem chuta e sente saudade dos três.
Pensa que uma bola poderia tê-los unido no mesmo jogo.
Cada hora um chutando e outro no gol, ou os três tabelando, ou dois na linha e um no gol, ou sentados no chão, com a bola no meio, bebendo água, suados, falando alto, rindo e se preparando pros próximos chutes.
Os três na garagem ou na praça.
Estiveram juntos algumas vezes em idades que teriam permitido a brincadeira, o jogo, os gols e as defesas dos três.
Mas não se lembraram de pegar uma bola.
E então tudo passou – veio a morte, veio o velho, veio o adulto.
Imagina que nada teria passado se tivessem jogado juntos ao menos uma vez.
Que tudo teria estancado naquele momento.
E que eles teriam ficado para sempre como eram então.
Jogando bola juntos.
Agora não dá mais.
Que droga.
(Texto de Luiz Guilherme Piva)

05 maio 2016

Solidão

Solidão
(Alceu Valença)
A solidão é fera, a solidão devora
É amiga das horas, prima irmã do tempo
E faz nossos relógios caminharem lentos
Causando um descompasso no meu coração
A solidão é fera...
É amiga das horas
É prima-irmã do tempo
E faz nossos relógios caminharem lentos
Causando um descompasso no meu coração
A solidão dos astros
A solidão da lua
A solidão da noite
A solidão da rua...

03 maio 2016

Orgulho das Derrotas

Fracassei em tudo o que tentei na vida.
Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui.
Tentei salvar os índios, não consegui.
Tentei fazer uma universidade séria e fracassei.
Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei.
Mas os fracassos são minhas vitórias.
Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu.
(Darcy Ribeiro (1922-1997), antropólogo, escritor e político brasileiro, conhecido por seu foco em relação aos índios e à educação no país)
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01 maio 2016

Numerados

Oficialmente, a primeira vez que foi utilizada a numeração nas camisas dos jogadores de futebol foi na Final da FA Cup, no dia 29 de abril de 1933, em partida entre Everton e Manchester City, no Wembley Stadium. A ideia era facilitar a identificação dos atletas dentro do campo.
Por ainda ser um teste, os organizadores decidiram distribuir os números de maneira curiosa: os jogadores do Everton, o mandante,  atuaram com as camisas do 1 ao 11, enquanto o City jogou do 12 a 22.
Com a bola rolando, os londrinos acabaram derrotando os Citizens por 3 a 0 e ficaram com o título. Os gols foram marcados por James Dunn (Camisa 8), Dixie Dean (Camisa 9) e Jimmy Stein (Camisa 11).
Após o sucesso nesta partida, a Football Association resolveu aderir ao esquema de numeração já na temporada seguinte, mesmo com a rejeição de boa parte dos atletas ingleses. Muitos diziam que ficariam parecidos com presidiários. A FIFA, por sua vez, obrigou as seleções a usarem os números nas camisas a partir da Copa do Mundo de 1950, no Brasil.
O primeiro número a levantar a taça da Copa do Mundo foi o 5, do capitão uruguaio Obdúlio Varela, em 1950.

23 abril 2016

Perdendo Sempre

A TV pequena, em preto e branco, cheia de chuviscos, faixas horizontais e verticais, sem som, ficava no fundo do botequim.
Os da frente ainda viam um pouco. Os do meio pra trás tinham que deduzir.
Mas todos vidrados em sagrado silêncio.
Fumo, cachaça, rapadura, pão velho.
Do lado de fora, nada.
Um terreno perdido e vasto.
Empoeirado.
Depois de morros e trilhas.
Era o único lugar por ali em que o pessoal das roças de todas as distâncias podia ver futebol.
Um deserto marrom.
Tufos de mato secos, queimados.
Cercas.
Só o telhado de amianto do boteco e a espinha de peixe da antena quebravam a paisagem.
Bicicletas velhas na porta.
As botinas do lado de fora pra não sujar o recinto.
Calor e moscas.
O ar parado.
De noitinha, todos de volta às suas distâncias.
À partida que eles venciam fugazmente naquelas horas de futebol aos domingos.
Todo o resto, antes e depois, dentro e fora do botequim, sem o futebol, era derrota.
E sem ninguém pra assistir.
(Texto de Luiz Guilherme Piva)

19 abril 2016

Pepe Pescador

Dizem que não se deve dar o peixe, mas ensinar o povo a pescar. Mas quando destroçamos o seu barco, roubamos sua vara e tiramos seus anzóis, é preciso começar a dando-lhes o peixe.” 
(José Alberto Mujica Cordano, conhecido popularmente como Pepe Mujica, agricultor e político uruguaio, presidente do seu país entre 2010 e 2015)
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17 abril 2016

Placar Humilhante

Montei o time com quatro zagueiros,
três volantes pelo meio,
os laterais e um no ataque
– um centroavante de araque.
A ordem era jogar bem fechadinho,
chegar junto, dar carrinho,
fazer cera e dar chutão.
Nada de toquinho, nem jogada,
só tentar bola parada
pra aproveitar a confusão
– nosso atacante é grandalhão.
Estávamos tomando um sufoco,
então reforcei um pouco
e tirei o centroavante
– botei um beque flutuante.
Tranquei ainda mais nossa defesa,
verdadeira fortaleza,
e mandei baixar o pau:
no craque deles logo deram quatro
(isso aqui não é teatro,
nem espaço cultural!)
– o cara era infernal!
Então o juizinho sem-vergonha
(um palerma, um pamonha)
expulsou meu capitão.
O sururu foi se configurando,
eu cheguei logo avisando:
vou te encher de bofetão!
Quando ele exibiu-me o vermelho,
dei-lhe um chute no joelho
e ele chamou a guarnição
– que me levou pro camburão.
Meu time ainda perdeu mais um zagueiro,
um lateral e o goleiro
pouco antes do intervalo
– o juizinho era um safado!
Os outros bem que lutaram bastante
mas o placar, tão humilhante,
mostra o assalto incomum.
O resultado foi um despautério:
terminou quatorze a zero,
um roubo claro, a olho nu!
– se ao menos fosse sete a um…
(Sete a um, eu me lembro muito bem.
Sete a um, eu me lembro muito bem).
(Texto de Luiz Guilherme Piva)

15 abril 2016

Cadê a Bola?

No gol de baixo não podia chutar. A bola tinha que ser levada até dentro da meta – um chinelo de cada lado. Nos chinelos de cima podia. Dois tempos, os times mudavam de lado, ficava equilibrado.
A rua era quase uma ladeira. E de paralelepípedo. Não era fácil dominar a bola. Fora as divididas, rebatidas, espirradas.
Com isso, ela toda hora rolava ladeira abaixo. Umas vezes dava pra pegar pertinho; mas quase sempre ela descia rapidamente até o terreno baldio no final da ladeira, quase 500 metros adiante.
Sempre sobrava pro menorzinho buscar. Só o deixavam jogar por causa disso.
Ele reclamava, mas davam-lhe cascudos e socos, xingavam, ameaçavam tirá-lo e ele acabava indo, as pernas curtas, embalado chorando morro abaixo, devagar chorando morro acima.
Dez, vinte vezes por jogo.
Queria jogar. A condição era essa.
Mas um dia ele não voltou.
Todo mundo esperando, estranhando o tempo. Sentaram-se. A tarde já ficando escura.
Decidiram descer todos: uns com raiva, prometendo surrar o moleque, outros com receio de que algo tivesse ocorrido.
No final da ladeira o medo era unânime. Foi sequestrado? Atropelado? Os pais dele vão nos matar. A polícia vai nos prender.
Entraram no terreno baldio. Entulhos, mato, tambores, mosquitos, monturos, poças. E escurecendo.
Gritaram o nome dele.
Nada.
O medo e a noite fizeram todos saírem. Subiram a ladeira devagar e apavorados.
Em silêncio.
Chegaram aos chinelos.
Olharam em volta pra ver se ele tinha voltado – embora não houvesse outro caminho.
Chamaram, gritaram.
Nada.
Na penumbra espessa calçaram as traves e decidiram ir à casa dele, com medo, contar aos seus pais.
Bateram palmas.
Nada. Casa vazia.
Mas como? A família era grande, estavam todos ali pouco antes.
Empurraram a porta. Tudo vazio, empoeirado, bolorento, malcheiroso.
Como se nunca ninguém tivesse morado ali.
Rangidos no fundo. Vento.
Tremiam.
Um grito (“gol!”) – a vozinha dele, muito alta e fina – fez todos correrem.
No escuro, um deles tropeçou em algo e caiu de cara no chão.
Era a bola.
(Texto de Luiz Guilherme Piva)

13 abril 2016

O Taxista

O Taxista
(Roberto Carlos)
Saio logo cedo no meu carro
Ninguém sabe o meu destino
Num aceno eu paro, abro a porta
E entra alguém sempre bem-vindo
Elegante ou mal vestido
Velho, moço ou até menino
Fecha a porta, diz aonde vai
E tudo bem eu já tô indo
Sou taxista, tô na rua, tô na pista
Não tô no palco
Mas no asfalto eu sou um artista
Ouço todo tipo de conversa
O tempo todo tô ligado
Só me meto, dou palpite
Dou conselho quando sou chamado
No meu carro ouço histórias
Desabafos, risos todo ano
Sou de tudo um pouco nessa vida
Eu sou um analista urbano
Sou taxista...
O papo é sempre o mesmo
Pra puxar qualquer assunto a qualquer hora
Que trânsito, que chuva, que calor!
Mas logo mais isso melhora
Tento agradar a todo mundo
E trabalhar sempre sorrindo
Mas sou um ser humano
E só eu sei as vezes o que estou sentindo
Sou taxista...
O cansaço, a solidão aperta
O coração na madrugada
Mas a missão cumprida me desperta
É hora de voltar pra casa
Dou graças a Deus que lindo os filhos
E a mulher em paz dormindo
Valeu a hora extra pra com eles
Ter a folga de domingo
Sou taxista...

11 abril 2016

O Cabeçudo

Dizem que aconteceu em Minas Gerais, em Ubá, cidade onde nasceu o genial compositor Ary Barroso.
Na cidade havia um senhor, cujo apelido era Cabeçudo. Nascera com uma cabeça grande, dessas cuja boina dá pra botar dentro, fácil, fácil, uma dúzia de laranjas.
Mas fora isso, era um cara pacato, bonachão e paciente.
Não gostava, é claro, de ser chamado de Cabeçudo, mas desde os tempos do grupo escolar, tinha um chato que não perdoava. Onde quer que o encontrasse, lhe dava um tapa na cabeça e perguntava:
- Tudo bom Cabeçudo?
O Cabeçudo, já com seus quarenta e poucos anos, e o cara sempre zombando dele.
Um dia, depois do milésimo tapão na sua cabeça, o Cabeçudo meteu a faca no zombeteiro e matou-o na hora.
A família da vítima era rica; a do Cabeçudo, pobre.
Não houve jeito de encontrar um advogado pra defendê-lo, pois o crime tinha muitas testemunhas.
Depois de apelarem pra advogados de Minas e do Rio, sem sucesso algum, resolveram procurar um tal de 'Zé Caneado', advogado que há muito tempo deixara a profissão, pois, como o próprio apelido indicava, vivia de porre.
Pois não é que o 'Zé Caneado' aceitou o caso? Passou a semana anterior ao julgamento sem botar uma gota de cachaça na boca!
Na hora de defender o Cabeçudo, ele começou a sua defesa assim:
- Meritíssimo juiz, honrado promotor, dignos membros do júri.
Quando todo mundo pensou que ele ia continuar a defesa, ele repetiu:
- Meritíssimo juiz, honrado promotor, dignos membros do júri.
Repetiu a frase mais uma vez e foi advertido pelo juiz:
- Peço ao advogado que, por favor, inicie a defesa.
Zé Caneado, porém, fingiu que não ouviu e:
- Meritíssimo juiz, honrado promotor, dignos membros do júri.
E o promotor:
- A defesa está tentando ridicularizar esta corte!
O juiz:
- Advirto ao advogado de defesa que, se não apresentar imediatamente os seus argumentos...
Foi cortado por Zé Caneado, que repetiu:
- Meritíssimo juiz, honrado promotor, dignos membros do júri.
O juiz não agüentou:
- Seu moleque safado, seu bêbado irresponsável, está pensando que a justiça é motivo de zombaria? Ponha-se daqui pra fora, antes que eu mande prendê-lo.
Foi então que o Zé Caneado disse:
- Senhoras e Senhores jurados, esta Côrte chegou ao ponto em que eu queria chegar... Vejam que, se apenas por repetir algumas vezes que o juiz é meritíssimo, que o promotor é honrado e que os membros do júri são dignos, todos perdem a paciência, consideram-se ofendidos e me ameaçam de prisão... Pensem então na situação deste pobre homem, que durante quarenta anos, todos os dias da sua vida, foi chamado de Cabeçudo!
O Cabeçudo foi absolvido e o Zé Caneado voltou a tomar suas cachaças em paz.

09 abril 2016

Victor Hugo

O francês Victor-Marie Hugo (1802-1885) foi um poeta, dramaturgo, novelista, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos de grande atuação em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.

07 abril 2016

Reunião no Além

Nunca havia presenciado uma cena parecida. 
Até hoje não sei se foi um desejo, um sonho ou uma rara experiência de EQM (experiência de quase morte).
Mas estava ali, na minha frente, aquela mesa gigante repleta de personagens notáveis, alguns nem tanto, sentados, lado a lado, com semblantes sérios e preocupados.
Reunião urgente. Em pauta: o Brasil.
De um lado da mesa eu podia ver os vultos de Niemeyer, Cazuza, Carlos Drummond, Ayrton Senna, Renato Russo, Paulo Francis, Don Helder, Médici e “Seo Zito”.
Do outro lado, Hebe Camargo, Chico Anísio, Volpi, Adib Jatene, Ulisses Guimarães, Ronald Golias, Araci de Almeida e um grupo enorme de motoboys recém chegados.
O primeiro problema apontado foi a violência. Muitas soluções apareceram…
A colocação de milhares de anjos da guarda de plantão nas esquinas das novas ciclovias e VLT’s foi sugerido. 
Mas o contingente seria imenso e o problema não era só urbano, disse Niemeyer, com uma vozinha tão baixa que não dava quase pra se ouvir.
Jatene com seu jaleco branco, lá na ponta, disse que a saúde estava pior que a violência.
Ulisses citou que mais grave era a corrupção e Drummond concordou com os dois dizendo que, com certeza, mais de uma pedra havia no caminho.
Cazuza então levantou e acusou a burguesia e suas piscinas cheias de ratos.
Renato Russo colocou a culpa em Brasília e nos cavalos marinhos.
E num canto isolado, Don Helder rezava pra que tudo acabasse bem.
A reunião começou a ficar chata mesmo quando Paulo Francis levou quarenta minutos para descrever o panorama político brasileiro. 
Foi quando Ayrton Senna pediu mais rapidez, enquanto Volpi rabiscava bandeirinhas e Hebe ria das piadas de Golias.
Até Pedro Alvares Cabral, que não havia sido convidado, sentiu-se no direito de participar e sugeriu que os portugueses é que deveriam “de voltar cá nestas terras” e resolver as questões, pois o que se vê hoje são problemas de criação.
Foi vaiado e retirado a tapas por Médici. 
Alguns minutos depois da briga, chegou Tim Maia que deveria ser o presidente da reunião, mas a pedido de Zito foi substituído da posição, por conta de mais um atraso.
A reunião rolava tensa. Nada se resolvia.
Grupos se desentendiam. Os da direita faziam barulho e não davam soluções.
Os da esquerda acusavam os da direita que atiravam papeizinhos, muito embora ninguém soubesse mais quem era esquerda e quem era direita.
Os da ponta, menos conhecidos e os motoboys apenas tiravam selfies.
Quando a discussão atingiu seu grau máximo e os militares já tentavam tomar conta da situação, Araci de Almeida mostrou a que veio, batendo na mesa e pondo ordem na casa, gritou com a voz da boa malandragem:
- Dá pra gente ter mais educação?
Todos levantaram e aplaudiram, concordando finalmente com a solução do país.
Será que dá?
(Texto de Inês Bari, escritora e publicitária)