01 setembro 2016
28 agosto 2016
Um Menino
Lotaram o ônibus velho. Além dos quarenta sentados, mais
uns vinte em pé no corredor. Com bandeiras, bumbos, cornetas, apitos, as
cabeças para fora, batendo as mãos na lataria e gritando o nome do time.
Pressionavam o motorista para andar mais depressa. Temiam
se atrasar para o jogo – no campo do adversário, em outra cidadezinha, a uns
trinta quilômetros. Ele tentava, acelerava, dava saltos nas arrancadas, mas o
motor já não respondia tanto.
Entraram na cidade consultando os relógios.
De repente, o ônibus parou. O motor ligado, mas sem
movimento.
Começou a gritaria. Partiram para cima do motorista. Ele
apontou o para-brisa: na ausência do domingo, no sol humilhante do domingo, na
poeira do domingo, um enterro entupia a passagem.
Poucas pessoas, maltrapilhas. Mulheres roxas. Crianças de
espiga. Homens vazados. E um caixãozinho de seis palmos carregado por um velho
e uma velha quase inexistentes.
Três torcedores decidiram ir lá tentar abrir caminho.
Pediram calma aos demais, ajeitaram as camisas e os cabelos e desceram.
Andaram no meio do cortejo. Próximos ao caixão, onde havia
mais adultos, falaram, perguntaram, fizeram sinais.
Nada.
Não respondiam. Não se mexiam. Não pareciam vê-los ou
ouvi-los.
Adiantaram-se para perto do velho e da velha. A mesma
coisa. Repetiram: o ônibus, o jogo, o time, os torcedores, o horário.
Nada.
Um deles então viu que o caixão não tinha tampa.
Inclinou-se e olhou.
Viu um menino de uns cinco anos abraçado a uma bola.
Empalideceu, paralisado.
Mostrou com o rosto para os outros dois, que arregalaram
os olhos e congelaram.
Como estavam diante do caixão, impediam o enterro de
avançar.
Mas ninguém os olhava. Todos de cabeça baixa – almas
puídas levando o menino morto com a bola nas mãos no vão do domingo –, parados.
O pessoal do ônibus começou a buzinar, tocar os
instrumentos, gritar, xingar. Iam perder o jogo.
Então o velho e a velha iniciaram, quase em silêncio, uma
ladainha enrolada, numa língua desconhecida. Os de trás os seguiram com vozes
surdas. Um canto estranho – e tão baixo que abafava a zoeira que vinha do
ônibus.
Os três, parados na frente, assustados, não tiravam os
olhos da criança sem cor, esquálida, com a bola na mão.
E então, sem se darem conta, começaram também a balbuciar
a cantiga que todos entoavam.
Pousaram as mãos no peito e puseram-se a andar ao lado do
caixão, murmurando a mesma melodia, a mesma letra irreal, junto com todos.
Os que estavam no ônibus, impacientes, desceram e, com
empurrões, abriram passagem no enterro até chegar lá na frente. Queriam liberar
a rua para o ônibus passar.
Mas viram o caixão. E o esqueletinho abraçado à bola.
Estancaram como à beira de um abismo.
Em volta todos cantavam a canção grave, ininteligível.
Não falaram nada.
Perplexos, vazios, abaixaram as cabeças e, um a um, foram
se juntando ao cortejo e somando suas vozes à cantiga.
E até o final do dia, quando o sol também era sepultado
nos morros, quando a poeira entalava todos os poros, quando o oco da
cidadezinha era fechado sob uma tampa escura, até a hora em que puseram o
caixãozinho num buraco baldio, todos eles, que não mais se lembravam do jogo
nem de si mesmos, seguiram o enterro, sussurraram a mesma canção crespa que os
demais cantavam – cada vez mais baixo, cada vez mais triste, cada vez mais
uníssona.
Antes da primeira pá de terra, com o caixão destampado, o
motorista do ônibus pediu que esperassem. Entrou no buraco, tirou a bola das
mãos e a pôs nos pés do menino. Subiu e sinalizou com a cabeça para que
continuassem.
Com poucas pás estava tudo coberto e acabado.
Mudos, voltaram para o ônibus.
Entraram e sentaram-se em silêncio.
O ônibus arrastando-se na estrada e na noite.
Foi quando alguém, lá no fundo do ônibus, puxou, baixinho,
a mesma ladainha do enterro.
E depois outro.
E mais um.
Até que todos, aos poucos, os seguiram e começaram a
cantar, juntos, quase sem se fazer ouvir, o mesmo canto desconexo e dolorido
com que sepultaram o menino e sua bola.
Como se o trouxessem no colo, como se o ninassem.
(Texto de Luiz Guilherme Piva)
25 agosto 2016
21 agosto 2016
19 agosto 2016
Momento Olímpico
Agora ela toda noite quer ver natação, vôlei, resumo do
dia, reprises, tênis, tudo o que existe na Olimpíada. Botar o jantar? Arrumar a
cama? Lição dos meninos? Nem aí. Bate palmas, dá gritinhos, chora, canta hino,
vibra, torce – nem sei se ela entende o que está vendo. Não aguentei. Ontem nem
voltei pra casa. Dormi num hotel. Pensa que ela telefonou? Nada. Nem deve ter
notado. Acho que só vai notar no final dos Jogos. Se notar, meu amigo, se
notar. Ainda se o Brasil ganhasse alguma coisa, vá lá. Mas ficar vendo gringo
ganhar medalha de ouro e largar a casa naquela bagunça? Não dá, amigo, não dá.
Mais uma e a conta?
17 agosto 2016
Espírito Olímpico
Olimpíada, gordo daquele jeito? Nunca andou mais de cinco
metros na vida! Come, bebe e dorme, mais nada. Você sabe bem, pai. Você sabe.
Agora, tem uma semana que está em frente à TV o dia todo. Só empilhando lata de
cerveja, saquinho de amendoim e cigarro. E ainda disse pro caçula: “filho,
esporte é saúde”, acredita? Fui falar com ele pra procurar emprego. Sabe o que
ele respondeu? “Silêncio, agora é a prova de vela!”. De vela, pai! De vela!
Xinguei-o de tudo que é nome. Aí ele se levantou e me deu uma sacudida tão
forte que me jogou no chão. Olha o roxo aqui no ombro, pai, olha. Ah, sabe o
que ele disse pras crianças? Que eu não tenho “espírito
olímpico”.
15 agosto 2016
Engraçadinho
O pai estragou tudo, mãe. Ele é muito chato. No dia da
abertura, levei os amigos pra assistir lá em casa. Sabe o que ele fez? Ficou na
sala com a gente. E eu tinha pedido pra ele sair, mãe. Avisei que eu queria
ficar sozinho com a turma. Atrapalhou tudo. E as piadas? Mãe, que vergonha! As
delegações estavam entrando. Aí ele começou: “Barbados? Mas só tem um a caráter!”. “Os de Bermudas, sim, estão coerentes”. “Somália só com dois representantes? Tinha que ser
Diminuília”. “Luxemburgo? Montenegro? Então eles se separaram de Vanderlei e de Oswaldo?” – e explicou pra todo mundo o que ocorreu com a antiga
Tchecoslováquia. “A delegação japonesa só tem uns dez: o resto é truque de espelhos”. Ninguém aguentava mais. Eu estava morto de vergonha, mãe. No
final do desfile entrou a delegação brasileira e ele ainda soltou essa: “Que vexame, o Brasil
já começa em último lugar!”. Foi todo mundo embora, mãe.
Estragou tudo.
(Texto de Luiz Guilherme Piva)
13 agosto 2016
11 agosto 2016
Brasil Olímpico
Medalhas do Brasil nos
Jogos Olímpicos:
0000: oO oP oB = T ---- (Cidade Sede)
1920: 01 01 01 = 300 - (Antuérpia-BEL)
1948: 00 00 01 = 100 - (Londres-ING)
1952: 01 00 02 = 300 - (Helsinque-FIN)
1956: 01 00 00 = 100 - (Melbourne-AUS)
1960: 00 00 02 = 200 - (Roma-ITA)
1964: 00 00 01 = 100 - (Tóquio-JAP)
1968: 00 01 02 = 300 - (México-MEX)
1972: 00 00 02 = 200 - (Munique-ALE)
1976: 00 00 02 = 200 - (Montreal-CAN)
1980: 02 00 02 = 400 - (Moscou-RUS)
1984: 01 05 02 = 800 - (Los Angelis-EUA)
1988: 01 02 03 = 600 - (Seul-COR)
1992: 02 01 00 = 300 - (Barcelona-ESP)
1996: 03 03 09 = 150 - (Atlanta-EUA)
2000: 00 06 06 = 120 - (Sydney-AUS)
2004: 05 02 03 = 100 - (Atenas-GRE)
2008: 03 04 08 = 150 - (Pequim-CHN)
2012: 03 05 09 = 170 - (Londres-ING)
2016: 07 06 06 = 190 - (Rio de
Janeiro-BRA)
000T: 30 36 61 = 127
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09 agosto 2016
Gol Olímpico
Marcado
diretamente através de uma cobrança de escanteio, o gol olímpico é um dos
lances mais inusitados do futebol.
O primeiro
registro de um gol nesta circunstância, de acordo com o site da Fifa, remete ao
ano de 1924, quando o atleta Billy Alston marcou um gol direto de uma cobrança
de escanteio em um jogo válido pela segunda divisão escocesa.
Já o termo
“olímpico” surgiria no mesmo ano, num amistoso entre Argentina e
Uruguai, em Buenos Aires. Em uma tarde do dia 2 de outubro, a bola rolava e,
aos 15 minutos de jogo, com o placar ainda zerado, o atacante argentino Cesáreo
Onzari bateu um escanteio pela esquerda com tanto efeito que a bola entrou
rente ao primeiro poste, para azar do goleiro uruguaio Antonio Mazzali.
Como os
rivais celestes vinham de uma conquista da medalha de ouro no Torneio Olímpico
de Paris, por brincadeira, a imprensa esportiva da Argentina descreveu o lance
como um “gol olímpico”.
No Brasil,
a popularização do termo aconteceu graças a um amistoso entre Vasco da Gama e
Montevideo Wanderers, do Uruguai, em março de 1928. A vitória vascaína por 1 a
0 veio de um gol feito em cobrança de escanteio do jogador Santana, o que
automaticamente gerou, assim como na Argentina quatro anos antes, uma
repercussão na mídia esportiva local.
07 agosto 2016
05 agosto 2016
Valentina
Valentina significa “valente”, “forte”, “vigorosa”, “cheia de saúde”.
O nome Valentina é a variante feminina de Valentim, Valentino, que tem origem no
nome do latim Valentinus, um diminutivo de valens, valentis,
que quer dizer “valente, forte, vigoroso, cheio de saúde”.
É um nome muito popular na Rússia, que tem como uma das
personalidades mais conhecidas a primeira mulher a visitar o espaço, a
cosmonauta Valentina Tereshkova, cuja missão de sucesso ocorrida em junho de
1963 concedeu-lhe destaque como heroína do seu país.
Trata-se de um bonito nome predominantemente feminino que
carrega consigo atributos de destaque, e cujas mulheres assim registradas
costumam ser afetivamente chamadas de Tina.
A versão masculina do nome, Valentim, foi encontrada em Portugal em documentos datados da primeira
metade do século XVI.
Valentim é o nome do santo que foi martirizado no dia 14 de
fevereiro, dia em que a maior parte do mundo comemora o Dia dos Namorados. Após
o imperador Cláudio II proibir que os homens se casassem, o presbítero Valentim
realizava, clandestinamente, casamentos de casais apaixonados, motivo pelo qual
foi preso e condenado à morte.
Valentina é um nome bastante comum nos países de língua latina e
anglo-saxônica, podendo aparecer também como um nome composto, tal como Maria Valentina.
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