13 fevereiro 2017

Boi e Sexo

- Não é um boi!
- Eu sei, não sou um boi, sou um touro reprodutor.
- Não é isso. Para. Sai de cima de mim. Eu descobri. Não é um boi. Sempre interpretaram a música errado.
- Você enlouqueceu de vez. O que é que está acontecendo? A gente quase nunca transa. Quando enfim acontece você para tudo e fala de música?
- É sério. Não sei como tive esse insight só agora, mas é esclarecedor. Não é um boi. Deve ser um caminhão, uma moto, qualquer coisa, mas não é o boi que todo mundo sempre pensou que fosse.
- Você está tendo algum tipo de alucinação? Que história é essa de boi, moto, caminhão?
- É simples. Você lembra da música Menino da Porteira?
- Essa música tem uns 100 anos, mas é claro que lembro.
- Lembra do trecho "quem matou o meu filhinho foi um boi sem coração"? Pois é, não é um boi. É uma metáfora. O boi sem coração não é um boi, é uma máquina. Por isso é que eu digo que foi uma moto, um caminhão. Entende o que eu digo? As pessoas não chamam moto de cavalo de aço? Pois é, o boi sem coração também é uma máquina. Se fosse mesmo um boi, não teria feito aquilo. O menino conhecia todos os bois, os bois conheciam ele, por que o matariam? Mas não foi um boi. Como é que ninguém nunca pensou nisso?
- Você está louca. Nós transamos a cada 15 dias, sempre às terças, porque é nas quartas que você pode acordar mais tarde. Você impôs essa regra e eu aceitei. Hoje é a segunda vez que estamos fazendo amor neste mês. Eu estava gostando. Estava aproveitando esse momento e você pensando numa música caipira do século passado?!
- Esquece o resto. Você também não acha que não pode ser um boi?
- O que eu acho é que você é uma vaca! Se você não gosta de sexo, é só dizer. Primeiro impõe esse cronograma ridículo, depois no meio da escassa oportunidade de se entregar fica pensando num boi. Você deve ser frígida. Esse seu boi foi um grande argumento para acabar com tudo. Para cortar esse raro sexo entre nós dois. Mas precisava de toda essa encenação? Era só falar, estou com dor de cabeça, dor nas pernas, dor nas juntas, dor no diabo que a carregue.
- Eu não entendo por que você está tão bravo. É por que a descoberta não foi sua, seu sabe-tudo?
- Você está louca. Você e seu boi, sua moto, sua máquina.
- Amorzinho. Não fica assim. Eu tive uma revelação durante o sexo. Isso não é ótimo? Vem aqui. Isso significa que vamos ter que repetir isso várias vezes. Todo dia. Muitas vezes ao dia. Há muitos mistérios a solucionar. Imagina descobrir o que é "zabelê, zumbi, besouro", o que significa "açaí, guardiã, zum de besouro, um imã", por que o lobo alimenta a matilha... As oportunidades são ilimitadas só na MPB...
- Pensando bem. Acho que gostei desse boi.
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10 fevereiro 2017

Final de Copa

Não resistiu. Viu a pelada e deu seta, pegou o acostamento devagar, desceu o pequeno declive de terra e deixou o carro perto do capinzal.
De terno e gravata, ficou em pé assistindo. Terrão, sol humilhante, dois times (com camisa e sem camisa) de rapazes simples jogavam como numa final de Copa do Mundo.
Suava, estava atrasado, se empoeirava, o compromisso era importante – mas ele não saía do lugar.
Viu que tinha uns galões de água, fez sinal pra um dos jogadores pedindo pra tomar. Virou no bico, esfregou a boca com as costas da mão, molhou o cabelo, pôs as mãos na cintura abrindo as asas do paletó e voltou a assistir.
Não pensava mais no tempo. A tarde crepitava. O jogo parecia que não teria fim. O zunido dos carros na estrada. Gols comemorados como vitórias numa guerra. O manto de poeira.
De cócoras. Com a mão em continência pra apurar a vista. A boca seca. Os lábios nos mesmos galões em que todos tomavam.
E foi aquilo. Um se machucou, tio, entra aí, quem, eu?, é, tio, completa aí, mas só estou assistindo, faz tempo que não jogo, só completa, de terno?, vai logo, tio, peraí, boa.
Era no time de camisa. Deixou o paletó no chão e entrou.
Não sabia mais o que estava acontecendo. Sol, poeira, carros, a bola, os jogadores em volta, ele correndo sem parar, a gravata balançando, os sapatos doendo, o suor empapando tudo, o barulho do tempo zunindo, zunindo, zunindo, escurecendo, quem fizer acaba, mas ninguém fazia, o jogo não acabava, quase noite, ele correndo, tocando, chutando, tropeçando, a boca cheia de terra, já não se via mais nada...
O carro tá lá no capinzal faz mais de um mês. Depenado.
Quem mora em volta não sabe como ele foi parar lá. Ninguém se lembra de ter visto nada: nem acidente, nem pelada, nem ninguém saindo do carro, dizem que naquele campo ninguém joga há anos.
Mas a polícia segue procurando o corpo.
É que acharam um paletó no chão, sujo de terra, do lado do campo.
Mas sem nada. Nenhum documento, nenhum papel. Nada.
(Texto de Luiz Guilherme Piva)

08 fevereiro 2017

Sabedoria Indígena

== “Quando for cortada a última árvore, pescado o último peixe e poluído o último rio, é que os homens perceberão que não podem comer dinheiro.”==

06 fevereiro 2017

04 fevereiro 2017

03 fevereiro 2017

Grandeza

==A grandeza de uma pessoa está em saber reconhecer sua própria pequenez.==
Blaise Pascal (1623-1662), filósofo, físico, matemático e escritor francês.
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01 fevereiro 2017

23 janeiro 2017

Sonho de Menino

Nunca foi de estudar, não. Negócio dele era bola, o dia todo.
Às vezes ajudava a mãe a preparar as coisas pra vender na rodoviária, mas logo se mandava pro campinho.
Comigo, nem pensar. Veio conhecer o ponto, expliquei tudo (grupo, dezena, os rateios), não quis saber. Deu uma brecha e sumiu.
Mas nunca deu trabalho. Chegava sujo, tomava banho, deitava, de manhã saía pra escola – mas ia nada, só quando não arrumava pelada no caminho.
Bom, agora taí. Moço, alto. Diz que vai embora. Tentar um time numa cidade maior. Fala nisso o dia todo. A gente tenta mudar a cabeça dele, mas vai dizer o quê? Pra vender sacolé, fazer jogo do bicho?
O medo é de que ele não volte nunca mais.
(Texto de Luiz Guilherme Piva)

19 janeiro 2017

Torcida Única

Morava numa pensão ali em frente. Era feriado, almoçou tarde, andou um pouco e resolveu entrar no estadiozinho. Nem gostava muito, mas se distrairia.
Sentou-se no cimento, o campo quase sem grama, os times entrando aos poucos, e viu que só havia ele assistindo.
Certamente chegaria mais gente. Da pensão sempre via ao menos umas dezenas entrando e saindo.
Mas não.
Hora de começar o jogo e ninguém nos degraus, só ele.
Tinha pensado em ficar uns minutos e sair. Mas agora não tinha jeito. Sentiu-se responsável: aprumou a postura, fixou os olhos mostrando interesse, não podia fingir que não estava ali.
O jogo morno, arrastado.
Mas ele começou a aplaudir um lance aqui, a dizer “boa!” pra uma jogada ali, a incentivar os dois times.
Levantava-se: “vamos, vamos!”; “chuta!”, “abre na direita!”; e até um “uh!” num chute que passou mais perto.
Os jogadores foram se animando. Tinham cochichado, antes de começar, que devia ser maluco: sozinho, naquele sol, no feriado, vir assistir a um jogo que não valia nada.
Mas, com os comentários e incentivos, começaram a se dedicar. A jogar para ele. Faziam um lance e o olhavam, como se buscassem sua aprovação. E viam-no cada vez mais envolvido, animado, assoviando, batendo palmas: “toca mais a bola!”; “volta pra marcar!”; “as costas, as costas, cuidado!” – para os dois times.
Até que soltou, muito alto, sem pensar, um “seu filho da puta!” pro centroavante que furou na cara do gol.
Todos pararam e o olharam. Ele estava alterado, vermelho.
E então se deu conta. Estancou. Sentiu o impacto.
Estranhou-se como se saísse de um transe que o tomara aos poucos.
Olhou em volta. Vazio. O campo. Os jogadores.
O eco do palavrão ainda reverberava, subia, batia no sol e descia como uma bigorna.
Sentou-se desajeitado. O jogo recomeçou lento.
Minutos depois, ele se levantou, foi saindo aos poucos, cabeça baixa, passou pelo portão, foi embora.
Os jogadores ficaram espiando sua saída. Mantiveram os lances devagar checando se ele desistiria. Depois, pararam e esperaram pra ver se ele voltava.
Ã-ã.
Só o sol, o silêncio e o vazio.
E desistiram.
Acabaram o jogo – não tinha juiz mesmo, eles é que resolviam.
Mas não perdoaram o centroavante, que foi sendo xingado por todos até o vestiário.
Quer dizer, o barraco atrás do gol.
(Texto de Luiz Guilherme Piva)

17 janeiro 2017

15 janeiro 2017

13 janeiro 2017

Copa 2026

A Fifa confirmou a Copa do Mundo com 48 seleções a partir de 2026 e quase cem anos depois da primeira edição, o Mundial quase que quadruplicará o número de participantes. Em 1930, no Uruguai, foram somente 13 equipes. O número oscilou até 1954, quando 16 times passaram a fazer parte até 1982. Na Espanha, houve aumento para 24 até a edição da França, em 1998, quando chegou ao número atual de 32 seleções. Daqui a três edições, o torneio sofrerá o maior inchaço desde a sua criação.
0000: Número de seleções em cada Copa do Mundo:
1930: 13 times / 18 partidas / 070 gols (3,9 média)
1934: 16 times / 17 partidas / 070 gols (4,0 média)
1938: 15 times / 18 partidas / 084 gols (4,7 média)
1950: 13 times / 22 partidas / 088 gols (4,0 média)
1954: 16 times / 26 partidas / 140 gols (5,4 média)
1958: 16 times / 35 partidas / 126 gols (3,6 média)
1962: 16 times / 32 partidas / 089 gols (2,8 média)
1966: 16 times / 32 partidas / 089 gols (2,8 média)
1970: 16 times / 32 partidas / 095 gols (3,0 média)
1974: 16 times / 38 partidas / 097 gols (2,6 média)
1978: 16 times / 38 partidas / 102 gols (2,7 média)
1982: 24 times / 52 partidas / 146 gols (2,8 média)
1986: 24 times / 52 partidas / 132 gols (2,5 média)
1990: 24 times / 52 partidas / 115 gols (2,2 média)
1994: 24 times / 52 partidas / 141 gols (2,7 média)
1998: 32 times / 64 partidas / 171 gols (2,7 média)
2002: 32 times / 64 partidas / 161 gols (2,5 média)
2006: 32 times / 64 partidas / 147 gols (2,3 média)
2010: 32 times / 64 partidas / 145 gols (2,3 média)
2014: 32 times / 64 partidas / 171 gols (2,7 média)
2018: 32 times / 64 partidas
2022: 32 times / 64 partidas
2026: 48 times / 80 partidas
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