05 maio 2017

Mil Latas

A cervejaria Nokian Panimo, da Finlândia, apresentou o pacote de sua cerveja Keisari, encontrado para vender em uma cadeia local de supermercados.
A fabricante insistiu que o pack exagerado de mil latas "não é uma piada", mas uma resposta à cervejaria rival Karjala, que está oferecendo packs de 100 latas.
Cada caixa com mil latas custa cerca de U$ 2.346, o que dá um preço equivalente a R$ 6,30 para cada cerveja.
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03 maio 2017

A Bola

Ninguém soube dizer de onde ela tinha vindo.
Talvez tivesse caído do alto do morro, onde provavelmente ficara desde a pelada do dia anterior: a meninada descera para suas casas – barracos amontoados em vielas tortas e íngremes – e a deixara lá. Mas os meninos garantiram que havia muitos dias não jogavam.
O fato é que, de manhã cedinho, o pessoal descendo os becos, as janelas esfregando as pálpebras, a bola veio pingando. Rolando devagar no começo, nas pedras do alto do morro, depois quicando nas lajes, ganhando altura, estufando os lençóis e as roupas coloridas como as de um festival ou de um feriado, esgueirando-se entre antenas e postes, batendo nas portas como se trouxesse cartas, pulando nos degraus de escadas sem começo nem fim, mergulhando nas bacias, nas latas d’águas nas cabeças, nos tetos de zincos pendurados pertinho do céu, às vezes ganhando enorme altura e formando outro olho, vesgo, ao lado do sol, às vezes perdendo velocidade e amortecendo o quique e deslizando nas ruelas mais planas, e as pessoas paravam para olhar, para dar caminho, para abrir as portas, a molecada correndo atrás, sem ninguém ousar tocá-la, todos dando-lhe passagem como num cortejo, até com reverências, abrindo a boca nas manobras mais elásticas, torcendo nos trechos em que ela se aninhava em obstáculos e se arrastava até o próximo declive e retomava a descida aos pulos, todos com os rostos para o alto, e para baixo, e para o alto, e para baixo, até que ela foi chegando ao fim do morro, ao limite entre a favela e a cidade, o asfalto, os carros, e tropeçou numa pedra mais alta, adquiriu força maior, elevou-se acima dos prédios da rua – e não desceu.
Não desceu.
Ficou todo mundo olhando para o alto, procurando, esperando sua volta triunfante, para vê-la quicando no asfalto até perder lentamente a inércia e repousar em algum canto, ou cair em cima de um caminhão, para cruzar fronteiras, ou parar embaixo dele, atropelada.
Mas não desceu.
O pessoal estranhou. Perguntaram-se com olhares, gestos, palavras, mas ninguém soube dizer.
E foi cada um pro seu canto. Cada qual com sua dor.
O curioso é que a meninada resolveu ir ao alto do morro, onde costumavam jogar e de onde a bola devia ter partido.
E não é que ela estava lá?
(Texto de Luiz Guilherme Piva, autor de “Eram Todos Camisa Dez”)
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01 maio 2017

Top-6 Mega

00: Maiores Prêmios da Mega Sena: :00
01: Concurso 1764 (25/11/2015)
00: R$ 205.329.753,89
00: 1 ganhador de Brasília-DF
02: Concurso 1220 (06/10/2010)
00: R$ 119.142.144.27
00: 1 ganhador de Fontoura Xavier-RS
03: Concurso 1575 (19/02/2014)
00: R$ 111.503.902,49
00: 1 ganhador de Santa Bárbara d’Oeste-SP
04: Concurso 1924 (26/04/2017)
00: R$ 101.484.527,44
00: 1 ganhador de Jaciara-MT
05: Concurso 1772 (22/12/2015)
00: R$ 098.688.974,76
00: 1 ganhador de Campos Belos-GO
00: 1 ganhador de Santos-SP
06: Concurso 1810 (20/04/2016)
00: R$ 092.303.225,84
00: 1 ganhador de Cabrobó-PE
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25 abril 2017

Cicatriz

=“Que coleção de cicatrizes você tem? Nunca se esqueça de quem lhe deu as melhores. E seja grato. Nossas cicatrizes têm o poder de nos fazer lembrar que o passado foi real.”=
(Escritor norte-americano Thomas Harris)
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21 abril 2017

19 abril 2017

17 abril 2017

No Alambrado

Era o que ele mais queria. Igual na TV, subir na tela ao comemorar o gol.
Só que não tinha alambrado.
Cada campo! Às vezes ao lado tinha riacho, bananeira, ribanceira, porteira, curral, estrada, muro, trilha de boi, formigueiro, ou só um descampado mesmo, de areia, terra ou capim.
Ele fazia o gol – muitos, aliás – e saía correndo, olhando, imaginando-se saltando nos buracos de arame e dando os braços para os torcedores, rodando a camisa sobre a cabeça e jogando-a no meio da galera.
Podiam dar cartão, sem problemas. Se fosse o segundo, podiam expulsar – nem aí.
Mas queria aquela glória. Vendo na TV abria a boca, levantava-se, insinuava o mesmo movimento, chegou a pular no sofá – que, fraco e velho, quebrou e lhe valeu uma bronca da esposa.
Uma vez havia uma cerca. Baixa, velha e de arame farpado. Chegou a correr na direção dela, mas viu que ela ia desmontar e que ele poderia se enganchar nos espinhos de ferro. Parou.
Até que um dia – quase sempre é com “um dia” que se fazem as histórias – foram a um campo melhor. Quase um estádio. Traves de ferro, rede nova, dois degraus de cimento de um lado para os torcedores, marcação de cal – e o alambrado!
Dos quatro lados. Com vigas brancas e a tela de losangos de arame.
Atrás dele, uma dúzia de velhos e meninos, dois vira-latas, um sujeito magrelo vendendo laranja.
Eu poderia terminar dizendo que ele não fez gol, mesmo tendo, além de duas chances cara a cara, um pênalti que ele chutou longe. E que se frustrou a ponto de nem querer mais jogar, ou de não conseguir mais fazer gol.
Ou que, mesmo assim, sem marcar, ao final do jogo ele correu até lá, subiu e comemorou emocionado, para espanto dos jogadores e dos assistentes.
Mas não. Este “um dia” pede outra variação.
Melhor assim: ele fez o gol, o da vitória, no final do jogo (no último segundo, na verdade), num chute retumbante de fora da área que bateu na forquilha e estufou a rede.
Ele correu para o alambrado. Ia subir e rodar a camisa e jogá-la como sempre sonhou.
Mas parou bruscamente a um metro da grade. Com a freada, os companheiros quase caíram por cima dele. Abraçaram-no, empilharam-se, ergueram-no nos ombros e o levaram numa espécie de volta olímpica.
Percorreram todo o perímetro lado a lado com o alambrado. Ele olhava cada gomo vazio, as vigas, os laços em volta das vigas, a cor do arame, o calibre, o espaço onde poria os pés, imaginava como apoiaria a mão esquerda e onde a camisa iria cair – talvez no cesto de laranjas.
Mas seguiu nos ombros dos colegas, deixou-se levar ao barraco que servia de vestiário, ao caminhão, à estrada, ao nunca mais.
E perdeu a vontade. Parou de pensar naquilo. Seguiu fazendo gols e comemorando no chão, como sempre.
Nem as comemorações da TV o abalavam mais.
Ele sabia que poderia ter feito o que mais queria. Que seria perfeito, glorioso, como sempre sonhara.
E isso lhe bastava.
(Texto de Luiz Guilherme Piva)
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15 abril 2017

13 abril 2017

Kryptônia

Kryptônia
(Zé Ramalho)
Não admito que me fale assim
Eu sou o seu décimo-sexto pai
Sou primogênito do teu avô
Primeiro curandeiro
Alcoviteiro das mulheres
Que corriam sob teu nariz
Me deves respeito
Pelo menos dinheiro
Esse é o cometa fulgurante
Que espatifou
Um asteróide pequeno
Que todos chamam de Terra
De Kryptônia desce teu olhar
E quatro elos prendem tua mão
Cala-te boca companheiro
Vá embora, que má criação!
De outro jeito
Não se dissimularia
A suma criação
E foi o silêncio
Que habitou-se no meio
Ele é o cometa fulgurante
Que espatifou
Um asteróide pequeno
Que todos chamam de Terra
O título Kryptônia, embora isso pareça muita surrealidade, deve fazer menção ao planeta de origem do Superman, Krypton. Seria um óbvio aportuguesamento do nome. O Superman nasceu em Krypton e, antes que esse planeta explodisse, foi enviado à Terra por seu pai. Quando Krypton explodiu, algumas partes suas chegaram à Terra em forma de asteroide, que traziam consigo pedaços de kryptonita, um mineral que tem o poder de enfraquecer o Superman.

11 abril 2017

09 abril 2017

Corrupção

“O Brasil não tem partido de direita, de esquerda, de nada. Tem um bando de salafrários que se reúnem pra roubar juntos.”
(Diogo Mainardi)
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“Todo mundo erra, só que uns viram as costas e não estão nem aí. Outros, procuram reparar seus erros.”
(Raquel Piffer)

07 abril 2017

Incontrolável

Quantas vezes já fez aquilo? Milhares, talvez.
Não era fácil, mas era natural: pegar a bola, levantá-la, controlá-la, mantê-la sob domínio – embora muitas vezes pensasse que a bola é quem dava o ritmo e a trajetória, e que só no final ele recobrava um pouco da altivez.
Mas há dias, semanas, que ele não consegue. Olha a bola, toca, dá voltas, segura com as mãos, rola no chão, pisa, faz menção de levantá-la, mas ela escapa. Joga-a para o alto, tenta apará-la no peito, mas ela pula longe.
Afasta-se, finge naturalidade e volta como se aquilo precisasse de um pouco de inconsciência. Chuta-a contra a parede para, na volta, com o bico do pé, fazê-la subi e descer mansa nas embaixadas. Nada: ela vem quieta e, ao seu toque, sai torta, parafusada, com medo dele, fugindo – e se esconde acuada debaixo de algo.  
Ele a deixa. Amanhã ou depois será domada.
Afinal, quem é ela para ter vontades? É sua razão que dá sentido a ela.  
Dias depois, outra tentativa. E outras.
Fracassos.
Decide então que não é sua razão, mas seus movimentos, sua experiência empírica em tocá-la, é que conferem validade à bola e ao ato de controlá-la.
Vai na marra.
Necas.  
Cada vez mais acha que está mudo dos pés.  
Ou que a bola está surda.
Tenta mímicas: deixa-a no chão e faz, no ar, os movimentos do controle para que ela assista, entenda, capitule. Ela espia sem olhos e estanca.
Tenta sombras: fica contra o sol, à frente da bola, de frente para o muro, para ver o reflexo escuro da esfera platônica às suas costas. Então vira-se para enxergá-la iluminada, para que ela se abra, se revele e se entregue a ele. Ela permanece fechada em sua verdade essencial, indesvendável.
Ele recua. Sabe que não sabe mais nada. Que desconhece a si mesmo.
E, por fim, desiste. Vê, sem ação, a bola se afastando, indo embora, um grão no horizonte.
Percebe que mesmo que corra atrás dela jamais a alcançará: pontos infinitesimais sempre a separarão dele porque o tempo, que sempre passava, deixou de existir.
Brincar com a bola agora é só uma ideia pretérita. Uma parte dele que não existe mais – porque tudo passou e ele não é mais o mesmo.
Ele entrou de uma vez por todas em outro rio.
E neste não há bola para se jogar.
(Texto de Luiz Guilherme Piva)
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