05 agosto 2017

03 agosto 2017

Que Jogo!

No bar, já com algumas rodadas de chope, começaram a brincar de voltar no tempo. Mas com destino específico: voltar a determinado jogo a que tinham assistido, seja no estádio, seja na televisão.
Um falou do Brasil 4 x 1 Itália em 1970. Todos fizeram “ah!”, expressando aprovação e saudade. Ele tinha dez anos, ficava ao lado da TV arrumando a antena e o controle das horizontais. A sala cheia, os gritos, as bandeirinhas de papel, as pessoas na rua depois do jogo, o sol, o domingo que nunca mais acabaria.
Outro estalou os dedos e citou Botafogo 6 x 0 Flamengo em 1972. Mas não era botafoguense e sim flamenguista. Sete anos de idade, a camisa do time, a dor de cada gol rasgando um pouco sua camisa e seu peito – logo era noite, o choro em soluços, a escola no dia seguinte com as gozações que ainda ressoavam na sua cabeça.
“Não tem comparação”, disse outro: “Corinthians 1 x 0 Ponte Preta, em 1977, gol do Basílio”. Notou-se sua emoção ao descrever o lance, os saltos nos chutes que antecederam o arremate fatal do “pé-de-anjo”, o grito rouco, já era rapazinho, o pai até o deixara tomar um copo de cerveja, ficou ouvindo rádio até não haver mais assunto, redesenhando na mente, deitado, todo o lance.
Surgiram clássicos Atlético x Cruzeiro, Grêmio x Internacional, o Brasil 2 x 3 Itália de 1982 – que provocou lamentos, xingamentos e até um choro, aplacado com um gole grande e uns tapinhas nas costas. E outros tantos jogos, às vezes citados ao mesmo tempo, causando certa alegria em uns, tristeza em outros, mas sempre com a aura de “que jogo, que jogo!”.
Só um, calado, apenas olhando, bebericando, não citou nenhum. Notaram. “E você, nenhum jogo? Logo o mais fanático por futebol? Não tem nenhum que você gostaria de voltar pra ver?”
Recostou-se, escorreu o corpo na cadeira, passou as duas mãos nos cabelos, suspirou. Todos o olhavam.
“Tem”, respondeu. “Eu era pequeno, no interior. Domingo de manhã fui pela primeira vez ver meu pai jogar na várzea. Ao lado do meu tio, vi o poeirão subindo nas disputas de bola, os empurra-empurras, os palavrões da torcida e dos jogadores, meu pai no banco, aguardando. Ele olhava pra mim às vezes, dava tchau. Eu perguntava pro meu tio se ele não ia jogar. ‘Vai, sim, já, já ele entra.’”
“Ganhei picolé, bala, biscoito de polvilho. O jogo já durava a vida inteira. Até que o vi se levantar do banco, arrumar o meião, ficar à beira do campo. Quando ele entrou meu coração virou um balão, subiu ao céu, planou sobre o mundo todo. E o vi correndo, dominando a bola, chutando. Era meu pai. Deu um carrinho que a torcida aplaudiu. Uma cabeçada que me pareceu que ele subira mais alto que um super-herói. Era meu pai.”
Na mesa, todos em atenção total. Nem mexiam nos copos.
“E acabou o jogo. Não sei quanto ficou. Sei que fui encontrá-lo. Ele suado, a camisa com o número 3 nas costas, a chuteira velha, a barba rala, o cheiro, a aliança apertando o dedo já mais gordo, os pelos nas pernas. Era meu pai.”
Bebeu um gole.
“Nunca mais fui ver. Ele também parou de jogar logo depois. Só o via depois com a roupa de trabalho: camisa, calça, sapato e a pastinha de vendedor. A mesma com que foi enterrado – sem a pastinha, claro.”
Fechou os olhos. Todos calados. “Eu queria voltar a esse jogo. Só pra gritar o que eu não gritei naquele dia. Queria gritar alto: ‘É meu pai! É meu pai!”. Não sei por que não gritei. Fiquei só olhando. Ele, às vezes, no campo, olhava pra mim. Sempre sonho que ele esperava que eu gritasse. Mas não gritei.”
Olhou em volta, bateu na mesa com as duas mãos. “Agora já era. Não dá mais.”
Uns segundos de silêncio.
Pediram a conta. Foram embora.
(Texto de Luiz Guilherme Piva)

01 agosto 2017

23 julho 2017

Morte Única

=“Os covardes morrem várias vezes antes da sua morte, mas o homem corajoso experimenta a morte apenas uma vez.”=
(William Shakespeare, dramaturgo e poeta inglês)
#

19 julho 2017

Futebol Fantasma

Fantasmas, sim. Eles sempre jogam ali. Chegam de noitinha, batem bola, dividem-se e começam.
Todos eles. Conheço todos. Vi cada um deles crescer, viver e morrer aqui no bairro. Pedreiros, vendedores, garçons, chapas, camelôs. Um deles foi alfaiate. E um ruço bexiguento que só bebia.
Foram morrendo. Uns moços; outros, de velhice. De uns anos pra cá começaram a se reunir ali pra jogar bola.
Começa bem na hora que eu pego no serviço. Abro o portão, entro, fecho, limpo os pingos de velas do chão, jogo fora os restos de flores e vou pra guarita.
Precisa, sim, de vigia. Antes não tinha. Mas andaram roubando de tudo aqui: azulejos, vasos, dentes, anéis, sapatos, sumiu até corpo de mulher nova.
Eles não me veem. Ou fingem, não importa. Fico ali fumando, de vez em quando grito “chuta!”, “cuidado!”, mas não ouvem. Só dá um grande eco no escuro.
Passa carro às vezes, bem no meio deles. No início eu me assustava, achava que ia atropelá-los, mas hoje dou risada. Também moto, gente, bicicleta. São poucos, mas passam. E não veem nada.
Ainda bem. Iam se assustar. As cabeças deles parecem máscaras: pálidas, sem pupilas, banguelas. Mas o corpo é igual ao de quando eram vivos.
Sabe que é um futebol até bonito? Leve, silencioso, sem briga.
O que me pergunto sempre é sobre a bola. Como é que pode ter bola fantasma?
Sim, bola fantasma. Porque ninguém que passa por aqui vê a bola. Só eles. Se fosse bola de verdade, o pessoal veria, não?
Como eu vejo? Não sei. Mas vejo tudo. Até a bola.
Meia-noite eles param. É a hora que eu desligo tudo. Deito no colchonete. Espero amanhecer.
Não sei até quando.
Não deve demorar.
Mas até que é bom saber que logo, logo vou ter essa peladinha pra jogar com eles.
(Texto de Luiz Guilherme Piva)

15 julho 2017

Inexoravelmente

A Natureza das Coisas
(Accioly Neto)
Oh! chá lá lá lá lá lá lá
Oh! coisa boa é namorar
Se avexe não
Amanhã pode acontecer tudo
Inclusive nada
Se avexe não
A lagarta rasteja até o dia
Em que cria asas
Se avexe não
Que a burrinha da felicidade
Nunca se atrasa
Se avexe não
Amanhã ela pára na porta
Da sua casa
Se avexe não
Toda caminhada começa
No primeiro passo
A natureza não tem pressa
Segue seu compasso
Inexoravelmente chega lá
Se avexe não
Observe quem vai subindo a ladeira
Seja princesa ou seja lavandeira
Pra ir mais alto vai ter que suar
#
#

13 julho 2017

11 julho 2017

Incontinência Verbal

As habituais reações desmesuradas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, transmitem a sensação de que falta a ele o indispensável equilíbrio para exercer função de tamanha responsabilidade no contexto global.

09 julho 2017

07 julho 2017

05 julho 2017

Gol de Honra

Comecinho de jogo.
– Volta!
Ele olhou espantado.
– Volta!
Era com ele mesmo.
Centroavante, retornava caminhando depois do ataque perdido. E iria somente até a intermediária do outro time, ou até o meio de campo, no máximo.
O rapaz gritava com ele:
– Volta pra marcar, porra! Vai ficar olhando?
Parou. Mais de dez anos jogando ali. Artilheiro. Capitão. Nunca ninguém ousara algo parecido. Nem técnico, nem torcida, muito menos jogador.
O rapaz, zagueiro, era novo no time. Filho de um morador recém-chegado ao bairro.
Não voltou. Pôs as mãos na cintura e ficou olhando. O rapaz foi envolvido pela tabela dos adversários, tentou bloquear o nove, chegou tarde, caiu, gol deles.
Levantou-se bufando e viu o centroavante lá na frente, assistindo. Foi andando firme em sua direção. Parecia decidido a enfrentá-lo. Jogadores, torcida, juiz, técnicos, todo mundo olhando.
Parou na frente do centroavante. Ia abrir a boca para xingá-lo ao mesmo tempo em que movia as mãos para pegá-lo pela gola.
O centroavante foi mais rápido. Segurou o rapaz pelos punhos, apertou-os de forma dolorida, colou o rosto no dele e berrou:
– Sabe quando eu vou voltar pra marcar? Sabe? Nunca!
A saliva espirrou no rosto do rapaz. O veterano o empurrou violentamente.
– Aqui eu faço é gol! Vocês lá atrás marcam! E os do meio me passam a bola para eu fazer gol!
Pôs o dedo no meio dos olhos do rapaz.
– Entendeu?
O jovem olhou em volta. O silêncio de todos parecia dar razão ao centroavante.
Ainda tentou, intimidado:
– Mas, gente. Futebol moderno é assim. Todo mundo tem que ajudar na marcação. Senão dá nisso: gol deles. Não viram?
Ficou claro que não tinha entendido nada.
O outro zagueiro foi lá puxá-lo de volta. Mas ele ainda insistia:
– É jogo coletivo, gente.
O pai dele, do lado de fora, abaixou a cabeça, entrou em campo, pegou-o pelo braço:
– Vem, filho, vamos embora.
– Mas, pai.
– Vamos, filho, vamos.
Virou-se para o centroavante:
– Desculpa aí. Ele é novo. Fica vendo esses jogos na TV. Desculpa. Não tinha ninguém para entrar no lugar dele. Jogaram o tempo todo com dez. E o centroavante seguiu sem voltar para marcar.
Perderam feio: seis a um.
Mas o gol foi dele.
(Texto de Luiz Guilherme Piva)