03 junho 2019
01 junho 2019
23 maio 2019
IRE-1258
O PRIMEIRO MILAGRE
Fim dos anos 70, o engenheiro Norberto Odebrecht decidiu ajudar Irmã Dulce construindo o Hospital Santo Antônio. Designou para a missão o jovem engenheiro Victor Gradim, filho de Bernardo Gradim, sócio dele na Construtora Odebrecht, a quem caberia tocar o projeto de cabo a rabo, dos cálculos de despesas com materiais até a construção em si.
Fim dos anos 70, o engenheiro Norberto Odebrecht decidiu ajudar Irmã Dulce construindo o Hospital Santo Antônio. Designou para a missão o jovem engenheiro Victor Gradim, filho de Bernardo Gradim, sócio dele na Construtora Odebrecht, a quem caberia tocar o projeto de cabo a rabo, dos cálculos de despesas com materiais até a construção em si.
Perto do fim, faltou
cimento. Com vergonha de dizer ao velho Norberto, o que seria a confissão de
que calculou mal, foi à própria Irmã Dulce:
– Irmã, faltou cimento. O que eu faço?
E Irmã Dulce:
– Venha, meu filho.
Levou ele, percorreu
todo o Albergue Santo Antônio, onde ela alojava os seus desvalidos. Fim do
périplo, deu a receita final:
– Venha, vamos ali buscar a ajuda.
Chegou ao pé do altar
de Santo Antônio, começou a rezar.
Victor saiu de lá, se virou, conseguiu o cimento sem o
velho Norberto saber. Irmã Dulce começou a fazer milagre mesmo antes de pensar
em ser santa.
(Levi
Vasconcelos/A Tarde)
19 maio 2019
17 maio 2019
15 maio 2019
IRE-1255
Acocorado na carroceria. E assim na
beirada do campo – um terreno disforme cercado de mangueiras. Ali ele ficava
com o canivete descascando a fruta e picando fumo.
Bota grossa, chapéu, os fiapos
brancos vazando sobre as orelhas, o traço de bigode sobre o lábio, torcia
calado pelo time dos amigos, todos muito mais novos – eram colegas de eito a
semana toda.
Na volta, o Fargo ligado na manivela
cuspia fumaça nas picadas e deixava os grupos em meio à poeira nas roças e
casebres. Ele era o último, no pau-a-pique perto do córrego.
No outro domingo, a mesma coisa. Nem
os mosquitos o faziam mover-se: canivete, manga, fumo e pito. De vez em quando
uma bicada no copo de branquinha.
Até que um dia o chamaram pra bater
um pênalti. No gol de baixo, no final da pirambeira. Final de jogo, vitória garantida,
quiseram homenageá-lo.
Assustou-se. Estranhou. Puxaram-no.
Foi.
De bota e chapéu, com as pernas
arqueadas. Dobrou a calça até o joelho. O goleiro já estava combinado, e até
uns moleques atrás das traves estavam a postos pra não deixar a bola ir longe.
Refugou, olhou pra trás, viu todos o
incentivarem.
Correu como pôde e deu a bicuda. Não
saiu forte, foi em cima do goleiro, mas ele desviou sem graça e a bola entrou.
Só que a bota voou longe, passou por
cima do bambu que servia de travessão e caiu no mato atrás dos moleques.
Ele ficou ali, com os dedos cascudos
de fora, vendo a bota sumir em parábola. O pessoal veio abraçá-lo pelo gol mas
ele se virou, puxou o canivete e rosnou avisando:
– Se não acharem a bota, corto a
barriga de um por um.
Ficaram até de noite procurando, se
coçando nas folhas, espinhos e bichos. Ele, perto do gol, de cócoras e arma em
punho, esperando.
O motorista do Fargo perdeu a
paciência, rodou a manivela e foi embora com o caminhão tossindo espesso e
embaçado.
Até que acharam. Ele a calçou,
embainhou o canivete e se levantou.
Voltaram a pé, calados, desfazendo o
grupo pelo caminho.
Ele seguiu sozinho o último trecho.
Deitou-se, tirou as botas e ficou
olhando a que reaparecera.
Não tinha carinho nenhum por ela.
Poderia tê-la deixado no mato, sem problema.
Mas com ela é que tinha feito o único
gol da vida.
Não ia perdê-la por nada.
(Texto de Luiz Guilherme Piva)
13 maio 2019
IRE-1254
Sábado e domingo jogava pelada o dia
inteiro. Não havia sítio, chácara, terrão, qualquer espaço, em que ele não
fosse visto. Além de jogar bem, era beque e não se cansava – todos o chamavam e
o queriam no seu time.
De noite, bebida, farra, zona.
Isso era também durante a semana.
Descarregava caminhão durante o dia, corria uns dez quilômetros até em casa no
fim do expediente (“pra relaxar”), tomava banho e caía na vida.
Magro e troncudo, canela fina e dura,
cabelo empastado, calado, sempre calmo, idade imprecisa, parecia indestrutível.
Mas domingo passado sentiu. Deu um
pique na lateral, a fisgada o pegou da coxa até as cadeiras, ele pôs a mão na
cintura, parou, levantou o outro braço pedindo ajuda, e ficou ali, como um
bule, travado.
Cercaram-no. Mudo, fechou os olhos,
tentou dar um passo, virar o corpo, agachar – nada.
Quiseram carregá-lo mas ele recusou.
Respirou fundo, esperou a dor passar, foi estourando o tempo, a pelada acabou.
Já escuro, só alguns ainda o
aguardavam, a dor sumiu, aceitou o gelol nas costas, conseguiu se mover, bateu
o pé no chão, sentiu firmeza, ajoelhou-se, deu um pulinho, disse que já estava
bom e propôs:
– Bora lá, vamo pro jogo!
Não quiseram. Nem tinha número.
Recomendaram que ele fosse pra casa. E que moderasse o ritmo; não dava pra
seguir daquele jeito.
Foram embora. Em casa, decidiu.
Largaria o trabalho de chapa. Aquilo ia acabar prejudicando seu futebol no fim
de semana.
Tomou um banho e seguiu pra zona.
(Texto
de Luiz Guilherme Piva)
11 maio 2019
09 maio 2019
07 maio 2019
IRE-1251
Sá Marina
Descendo a rua da ladeira
Só quem viu, que pode contar
Cheirando a flor de laranjeira
Sá Marina levei pra dançar
De saia branca costumeira
Gira o sol, que parou pra olhar
Com seu jeitinho tão faceira
Fez o povo inteiro cantar
Só quem viu, que pode contar
Cheirando a flor de laranjeira
Sá Marina levei pra dançar
De saia branca costumeira
Gira o sol, que parou pra olhar
Com seu jeitinho tão faceira
Fez o povo inteiro cantar
Roda pela vida afora
E põe pra fora essa alegria
Dança que amanhece o dia pra se cantar
Gira, que essa gente aflita
Se agita e segue no seu passo
Mostra toda essa poesia no olhar
E põe pra fora essa alegria
Dança que amanhece o dia pra se cantar
Gira, que essa gente aflita
Se agita e segue no seu passo
Mostra toda essa poesia no olhar
Deixando versos na partida
E só cantigas pra se cantar
Naquela tarde de domingo
Fez o povo inteiro chorar
E fez o povo inteiro chorar
E só cantigas pra se cantar
Naquela tarde de domingo
Fez o povo inteiro chorar
E fez o povo inteiro chorar
Quando Wilson
Simonal gravou “Sá Marina”, em 1968, todo mundo
imaginou aquela mulher que descia a rua da ladeira, com sua saia branca
costumeira, e que cheirava a flor de laranjeira…
Essa canção, uma letra de Tibério Gaspar para
uma música de Antonio Adolfo, relata uma paixão de Tibério por sua professora
no interior do Rio de Janeiro, quando ele tinha 8 anos.
A história é contada no volume 1 do livro
“Então, foi assim” de Ruy Godinho, sobre a professora que morava na cidade de
Anta-RJ:
“Na cidade morava uma
professora chamada Brasilina, uma mulher loura, bonita, desejada pelos homens e
odiada pelas mulheres. Ela morava na Rua da Ladeira. E quando ela saía de casa descendo
a rua, os pudores se reviravam. Enquanto os homens babavam, as mulheres cuspiam
na calçada, batendo janelas. ‘Eu amava essa mulher’, afirma um saudoso Tibério. ‘Uma vez
engendrei um plano audacioso. Eu tinha uns oito anos. Aproveitando o fato de
minha mãe ser amiga dela, pedi que me levasse junto quando fosse visitá-la. E
assim aconteceu após alguns dias. Minha mãe chamou-me e fomos pra casa de
Brasilina. Chegando lá, pus em prática o meu plano de ‘assédio sexual’.
Propositalmente esqueci um pente no sofá da sala na hora de ir embora. Minha
intenção era voltar à noitinha para resgatá-lo. Tudo certo. Fiz tudo como
planejara e à noite dei uma escorregada até a casa da professora e…
Tibério, tímido, não
teve coragem.
Ficou plantado na porta.
O pente ficou lá, esquecido.
Um belo dia, Brasilina foi embora.
Resolveu morar em Niterói, e a vida de Anta voltou a ter a monotonia de sempre…
Foi assim que Brasilina inspirou Tibério
a fazer a letra da canção, só mudando o nome da musa para Sá Marina, que era
mais musical.
Conta Tibério ainda sobre a canção:
“Interessante é que anos mais tarde,
depois que a música fez sucesso, eu fui procurado pelo programa de Flavio
Cavalcanti. O programa dele tinha o quadro “Os compositores e suas musas”. Daí
ele me chamou para falar sobre Sá Marina. Contei que não sabia com precisão
onde morava, sabia apenas que ela havia se mudado para Niterói. A produção do
programa foi atrás de Brasilina. Ela falou que conhecia a música, que tinha
adorado tudo que estava sendo falado, mas que não queria ir ao programa, não
queria que tirassem fotografias e que nem a filmassem. “Quero que Tiberinho
continue a ter a mesma ideia de mim como eu era antigamente. Agora estou velha
e não quero que ele me veja assim…”
E
assim surgiu um dos maiores, se não o maior sucesso de Wilson Simonal. A canção
teve mais de 300 gravações e ainda dá para imaginar a moça descendo a rua da
ladeira, provocando rebuliço naquela cidade do interior.
05 maio 2019
IRE-1250
Regras do futebol de rua
de antigamente:
✅(1) Os dois melhores não podem estar no mesmo time. Logo,
eles tiram par-impar e escolhem os times.
✅(2) Ser escolhido por último é uma grande humilhação.
✅(3) Um time joga sem camisa e o outro com camisa.
✅(4) O pior de cada time vira goleiro, a não ser que tenha
alguém que goste de agarrar.
✅(5) Se ninguém aceita ser goleiro, adota-se um rodízio:
cada um agarra até sofrer um gol.
✅(6) Quando tem um pênalti, sai o goleiro ruim e entra um
bom só para tentar pegar a cobrança.
✅(7) Os piores de cada lado ficam na zaga.
✅(8) O dono da bola joga no mesmo time do melhor jogador.
✅(9) Não tem juiz.
✅(10) As faltas são marcadas no grito: se você foi
atingido, grite como se tivesse quebrado uma perna e conseguirá a falta.
✅(11) Se você está no lance e a bola sai pela lateral,
grite " é nossa" e pegue a bola o mais rápido possível para fazer a
cobrança (essa regra também se aplica ao "escanteio").
✅(12) Lesões como arrancar a tampa do dedão do pé, ralar o
joelho, sangrar o nariz e outras são normais.
✅(13) Quem chuta a bola para longe tem que buscar.
✅(14) Lances polêmicos são resolvidos no grito ou, se for o
caso, na pancada.
✅(15) A partida acaba quando todos estão cansados, quando
anoitece, quando a mãe do dono da bola manda ele ir pra casa, ou quando aquela
vizinha prende (ou corta) a bola que caiu na casa dela.
✅(16) Mesmo que esteja 15 x 0, a partida acaba com
"quem faz, ganha".
✅(17) Rua de baixo contra rua de cima, valendo garrafa de
tubaína ou coca-cola.
✅(18) Se chover forte, certamente haverá futebol.
✅(19) Obrigatório o famoso grito "paroooou"
quando passar carro ou uma mulher grávida e/ou com criança perto da pelada.
(Se lembrou tua infância, então
fostes uma criança normal e feliz)
03 maio 2019
IRE-1249
Conta
Sebastião Nery em 350
Histórias do Folclore Político Brasileiro que Arnon de Melo, pai de Fernando Collor, senador, mandou chamar um
cabo eleitoral.
– O que é que há com você, rapaz? Eu
soube que você matou Zé Maria, meu aliado?
– Matei, doutor. Eu peguei uma doença
esquisita. Quando vejo um político mentindo me ataca uma tosse tão violenta que
só para quando eu mato o sujeito.
Passou o
tempo, lá um dia, disputando o governo, Arnon foi fazer comício na terra do tal
cabo eleitoral.
– Meus amigos, eu vou multiplicar os
votos de vocês em benefícios para esta terra como Cristo multiplicou os peixes
nas montanhas da Terra Santa. Naquele dia, na Judeia, Jesus Cristo alimentou a
multidão com dois peixes!
Embaixo do
palanque, o cabo eleitoral começou a tossir, Arnon viu, lembrou, se corrigiu:
– Sim, mas eram dois peixes
enormes, dois peixões gigantes, duas baleias imensas!
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