28 agosto 2016

Um Menino

Lotaram o ônibus velho. Além dos quarenta sentados, mais uns vinte em pé no corredor. Com bandeiras, bumbos, cornetas, apitos, as cabeças para fora, batendo as mãos na lataria e gritando o nome do time.
Pressionavam o motorista para andar mais depressa. Temiam se atrasar para o jogo – no campo do adversário, em outra cidadezinha, a uns trinta quilômetros. Ele tentava, acelerava, dava saltos nas arrancadas, mas o motor já não respondia tanto.
Entraram na cidade consultando os relógios.
De repente, o ônibus parou. O motor ligado, mas sem movimento.
Começou a gritaria. Partiram para cima do motorista. Ele apontou o para-brisa: na ausência do domingo, no sol humilhante do domingo, na poeira do domingo, um enterro entupia a passagem.
Poucas pessoas, maltrapilhas. Mulheres roxas. Crianças de espiga. Homens vazados. E um caixãozinho de seis palmos carregado por um velho e uma velha quase inexistentes.
Três torcedores decidiram ir lá tentar abrir caminho. Pediram calma aos demais, ajeitaram as camisas e os cabelos e desceram.
Andaram no meio do cortejo. Próximos ao caixão, onde havia mais adultos, falaram, perguntaram, fizeram sinais.
Nada.
Não respondiam. Não se mexiam. Não pareciam vê-los ou ouvi-los.
Adiantaram-se para perto do velho e da velha. A mesma coisa. Repetiram: o ônibus, o jogo, o time, os torcedores, o horário.
Nada.
Um deles então viu que o caixão não tinha tampa. Inclinou-se e olhou.
Viu um menino de uns cinco anos abraçado a uma bola.
Empalideceu, paralisado.
Mostrou com o rosto para os outros dois, que arregalaram os olhos e congelaram.
Como estavam diante do caixão, impediam o enterro de avançar.
Mas ninguém os olhava. Todos de cabeça baixa – almas puídas levando o menino morto com a bola nas mãos no vão do domingo –, parados.
O pessoal do ônibus começou a buzinar, tocar os instrumentos, gritar, xingar. Iam perder o jogo.
Então o velho e a velha iniciaram, quase em silêncio, uma ladainha enrolada, numa língua desconhecida. Os de trás os seguiram com vozes surdas. Um canto estranho – e tão baixo que abafava a zoeira que vinha do ônibus.
Os três, parados na frente, assustados, não tiravam os olhos da criança sem cor, esquálida, com a bola na mão.
E então, sem se darem conta, começaram também a balbuciar a cantiga que todos entoavam.
Pousaram as mãos no peito e puseram-se a andar ao lado do caixão, murmurando a mesma melodia, a mesma letra irreal, junto com todos.
Os que estavam no ônibus, impacientes, desceram e, com empurrões, abriram passagem no enterro até chegar lá na frente. Queriam liberar a rua para o ônibus passar.
Mas viram o caixão. E o esqueletinho abraçado à bola.
Estancaram como à beira de um abismo.
Em volta todos cantavam a canção grave, ininteligível.
Não falaram nada.
Perplexos, vazios, abaixaram as cabeças e, um a um, foram se juntando ao cortejo e somando suas vozes à cantiga.
E até o final do dia, quando o sol também era sepultado nos morros, quando a poeira entalava todos os poros, quando o oco da cidadezinha era fechado sob uma tampa escura, até a hora em que puseram o caixãozinho num buraco baldio, todos eles, que não mais se lembravam do jogo nem de si mesmos, seguiram o enterro, sussurraram a mesma canção crespa que os demais cantavam – cada vez mais baixo, cada vez mais triste, cada vez mais uníssona.
Antes da primeira pá de terra, com o caixão destampado, o motorista do ônibus pediu que esperassem. Entrou no buraco, tirou a bola das mãos e a pôs nos pés do menino. Subiu e sinalizou com a cabeça para que continuassem.
Com poucas pás estava tudo coberto e acabado.
Mudos, voltaram para o ônibus.
Entraram e sentaram-se em silêncio.
O ônibus arrastando-se na estrada e na noite.
Foi quando alguém, lá no fundo do ônibus, puxou, baixinho, a mesma ladainha do enterro.
E depois outro.
E mais um.
Até que todos, aos poucos, os seguiram e começaram a cantar, juntos, quase sem se fazer ouvir, o mesmo canto desconexo e dolorido com que sepultaram o menino e sua bola.
Como se o trouxessem no colo, como se o ninassem.
(Texto de Luiz Guilherme Piva)

25 agosto 2016

21 agosto 2016

19 agosto 2016

Momento Olímpico

Agora ela toda noite quer ver natação, vôlei, resumo do dia, reprises, tênis, tudo o que existe na Olimpíada. Botar o jantar? Arrumar a cama? Lição dos meninos? Nem aí. Bate palmas, dá gritinhos, chora, canta hino, vibra, torce – nem sei se ela entende o que está vendo. Não aguentei. Ontem nem voltei pra casa. Dormi num hotel. Pensa que ela telefonou? Nada. Nem deve ter notado. Acho que só vai notar no final dos Jogos. Se notar, meu amigo, se notar. Ainda se o Brasil ganhasse alguma coisa, vá lá. Mas ficar vendo gringo ganhar medalha de ouro e largar a casa naquela bagunça? Não dá, amigo, não dá. Mais uma e a conta?
(Texto de Luiz Guilherme Piva)

17 agosto 2016

Espírito Olímpico

Olimpíada, gordo daquele jeito? Nunca andou mais de cinco metros na vida! Come, bebe e dorme, mais nada. Você sabe bem, pai. Você sabe. Agora, tem uma semana que está em frente à TV o dia todo. Só empilhando lata de cerveja, saquinho de amendoim e cigarro. E ainda disse pro caçula: “filho, esporte é saúde”, acredita? Fui falar com ele pra procurar emprego. Sabe o que ele respondeu? “Silêncio, agora é a prova de vela!”. De vela, pai! De vela! Xinguei-o de tudo que é nome. Aí ele se levantou e me deu uma sacudida tão forte que me jogou no chão. Olha o roxo aqui no ombro, pai, olha. Ah, sabe o que ele disse pras crianças? Que eu não tenho “espírito olímpico”.
(Texto de Luiz Guilherme Piva)

15 agosto 2016

Engraçadinho

O pai estragou tudo, mãe. Ele é muito chato. No dia da abertura, levei os amigos pra assistir lá em casa. Sabe o que ele fez? Ficou na sala com a gente. E eu tinha pedido pra ele sair, mãe. Avisei que eu queria ficar sozinho com a turma. Atrapalhou tudo. E as piadas? Mãe, que vergonha! As delegações estavam entrando. Aí ele começou: “Barbados? Mas só tem um a caráter!”. “Os de Bermudas, sim, estão coerentes”. “Somália só com dois representantes? Tinha que ser Diminuília”. “Luxemburgo? Montenegro? Então eles se separaram de Vanderlei e de Oswaldo?” – e explicou pra todo mundo o que ocorreu com a antiga Tchecoslováquia. “A delegação japonesa só tem uns dez: o resto é truque de espelhos”. Ninguém aguentava mais. Eu estava morto de vergonha, mãe. No final do desfile entrou a delegação brasileira e ele ainda soltou essa: “Que vexame, o Brasil já começa em último lugar!”. Foi todo mundo embora, mãe. Estragou tudo.
(Texto de Luiz Guilherme Piva)

13 agosto 2016

11 agosto 2016

Brasil Olímpico

Medalhas do Brasil nos Jogos Olímpicos:
0000: oO oP oB = T ---- (Cidade Sede)
19200001 = 300 - (Antuérpia-BEL)
194800 00 01 = 100 - (Londres-ING)
1952000 02 = 300 - (Helsinque-FIN)
1956000 00 = 100 - (Melbourne-AUS)
196000 00 02 = 200 - (Roma-ITA)
196400 00 01 = 100 - (Tóquio-JAP)
196800 002 = 300 - (México-MEX)
197200 00 02 = 200 - (Munique-ALE)
197600 00 02 = 200 - (Montreal-CAN)
1980000 02 = 400 - (Moscou-RUS)
19840002 = 800 - (Los Angelis-EUA)
19880003 = 600 - (Seul-COR)
19920000 = 300 - (Barcelona-ESP)
19960009 = 150 - (Atlanta-EUA)
200000 006 = 120 - (Sydney-AUS)
20040003 = 100 - (Atenas-GRE)
20080008 = 150 - (Pequim-CHN)
20120009 = 17- (Londres-ING)
201607 06 06 = 190 - (Rio de Janeiro-BRA)
000T30 36 61 = 127
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09 agosto 2016

Gol Olímpico

Marcado diretamente através de uma cobrança de escanteio, o gol olímpico é um dos lances mais inusitados do futebol.
O primeiro registro de um gol nesta circunstância, de acordo com o site da Fifa, remete ao ano de 1924, quando o atleta Billy Alston marcou um gol direto de uma cobrança de escanteio em um jogo válido pela segunda divisão escocesa.
Já o termo “olímpico” surgiria no mesmo ano, num amistoso entre Argentina e Uruguai, em Buenos Aires. Em uma tarde do dia 2 de outubro, a bola rolava e, aos 15 minutos de jogo, com o placar ainda zerado, o atacante argentino Cesáreo Onzari bateu um escanteio pela esquerda com tanto efeito que a bola entrou rente ao primeiro poste, para azar do goleiro uruguaio Antonio Mazzali.
Como os rivais celestes vinham de uma conquista da medalha de ouro no Torneio Olímpico de Paris, por brincadeira, a imprensa esportiva da Argentina descreveu o lance como um “gol olímpico”.
No Brasil, a popularização do termo aconteceu graças a um amistoso entre Vasco da Gama e Montevideo Wanderers, do Uruguai, em março de 1928. A vitória vascaína por 1 a 0 veio de um gol feito em cobrança de escanteio do jogador Santana, o que automaticamente gerou, assim como na Argentina quatro anos antes, uma repercussão na mídia esportiva local.

07 agosto 2016

05 agosto 2016

Valentina

Valentina significa “valente”, “forte”, “vigorosa”, “cheia de saúde”.
O nome Valentina é a variante feminina de Valentim, Valentino, que tem origem no nome do latim Valentinus, um diminutivo de valens, valentis, que quer dizer “valente, forte, vigoroso, cheio de saúde”.
É um nome muito popular na Rússia, que tem como uma das personalidades mais conhecidas a primeira mulher a visitar o espaço, a cosmonauta Valentina Tereshkova, cuja missão de sucesso ocorrida em junho de 1963 concedeu-lhe destaque como heroína do seu país.
Trata-se de um bonito nome predominantemente feminino que carrega consigo atributos de destaque, e cujas mulheres assim registradas costumam ser afetivamente chamadas de Tina.
A versão masculina do nome, Valentimfoi encontrada em Portugal em documentos datados da primeira metade do século XVI.
Valentim é o nome do santo que foi martirizado no dia 14 de fevereiro, dia em que a maior parte do mundo comemora o Dia dos Namorados. Após o imperador Cláudio II proibir que os homens se casassem, o presbítero Valentim realizava, clandestinamente, casamentos de casais apaixonados, motivo pelo qual foi preso e condenado à morte.
Valentina é um nome bastante comum nos países de língua latina e anglo-saxônica, podendo aparecer também como um nome composto, tal como Maria Valentina.

03 agosto 2016

É d'Oxum


É d'Oxum
(Gerônimo)
Nessa cidade todo mundo é d'Oxum
Homem, menino, menina, mulher
Toda gente irradia magia
Presente na água doce
Presente na água salgada
E toda cidade brilha
Seja tenente ou filho de pescador
Ou importante desembargador
Se der presente é tudo uma coisa só
A força que mora n'água
Não faz distinção de cor
E toda cidade é d'Oxum
É d'Oxum, é d'Oxum
Eu vou navegar
Eu vou navegar nas ondas do mar
Iá aguibá Oxum aurá olu adupé
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