01 fevereiro 2015

Coraçãozinho

Lá vinha ele com as mãos formando o coraçãozinho. Ela odiava.
Desde que vira a primeira vez na TV, toda vez que fazia gol ele corria na direção dela, no alambrado, com aquele contorno que ela achava ridículo no ar.
Morta de vergonha, ria esmaltado.
Agora que se separaram ela até sente um pouquinho mais de afeto pelo gesto.
Mas nem a campo vai mais.
E ele nunca mais conseguiu fazer gol.
Não fazia muitos antes. Zagueirão, enorme, troncudo, só em cabeçadas de escanteio, de vez em quando. Mas fazia.
O que ela não aguentava era aquele homenzarrão com as mãozinhas de pétalas – cadê os punhos cerrados, o muque, o soco no ar, o tapa no peito, o berro, o homem que ela gostava de exibir?
“Mas é de carinho”, a mãe, a irmã, as amigas tentavam.
Ela detestava cada vez mais.
E só aguentou até o dia em que ele rebuscou. Fez o coraçãozinho, pôs as mãos coladas no peito, do lado esquerdo, e pulsou a mímica, como se o órgão batesse. Na cara, o sorriso frágil, feliz.
Ela se agarrou ao arame, esticou o pescoço e gritou na frente de todo mundo: “Seja homem, rapaz! Seja homem!”.
E foi embora. Do campo, de casa, da vida dele. Ninguém acredita que volte.
Embora ele insista.
(Texto de Luiz Guilherme Piva)