Antes de virar presidente, antes de
ser manchete diária, antes de o país se dividir em lados opostos, Dilma Rousseff já tinha aprendido cedo o que era resistir quando tudo desmorona.
Ela nasceu em Belo Horizonte, em
1947, filha de um imigrante búlgaro que fugiu do nazismo e de uma professora
brasileira. Cresceu em uma casa onde estudar, ler e questionar eram parte da
rotina. Na juventude, encontrou um Brasil sob ditadura militar. Entrou na
política não por projeto de poder, mas por inconformismo.
No fim dos anos 1960, passou a
integrar grupos de resistência ao regime. Não comandou ações armadas, mas atuou
na organização política clandestina. Em 1970, foi presa. Tinha 22 anos. Passou
quase três anos encarcerada, submetida a interrogatórios violentos e tortura —
fatos reconhecidos oficialmente pelo Estado brasileiro décadas depois. Ao sair
da prisão, não recebeu proteção nem atalhos. Teve que recomeçar do zero.
Mudou-se para o Rio Grande do Sul.
Voltou a estudar, formou-se em Economia pela UFRGS e seguiu carreira técnica no
setor público. Trabalhou com planejamento e energia. Ganhou fama de gestora
rígida, exigente, focada em resultados. Nunca foi conhecida pelo carisma, mas
pela capacidade técnica.
Nos anos 1990, aproximou-se do
Partido dos Trabalhadores. No governo do Rio Grande do Sul, foi secretária de
Energia e depois de Administração. Em 2003, com Lula eleito presidente, assumiu
o Ministério de Minas e Energia. Teve papel central na reorganização do setor
elétrico após o apagão do início dos anos 2000.
Em 2005, depois da crise do mensalão,
Lula a nomeou ministra-chefe da Casa Civil. Tornou-se a principal coordenadora
do governo federal. Em 2009, enfrentou um câncer linfático. Passou por
quimioterapia, perdeu o cabelo, seguiu trabalhando durante o tratamento e teve
remissão completa da doença.
Em 2010, Lula a escolheu como
sucessora. Dilma venceu a eleição e se tornou a primeira mulher presidente do
Brasil. Tomou posse em 2011. Seu governo manteve políticas sociais, investiu em
infraestrutura e deu continuidade a grandes projetos, mas enfrentou
desaceleração econômica e dificuldades crescentes de articulação política. Em
2013, o país viveu grandes manifestações de rua.
Em 2014, venceu uma eleição apertada.
O segundo mandato começou sob forte crise econômica e política. O Congresso se
voltou contra o governo. O vice-presidente, Michel Temer, rompeu politicamente.
Em 2015 e 2016, avançou o processo de impeachment.
Aqui está o ponto que divide o Brasil
até hoje.
Do ponto de vista legal, o impeachment
seguiu o rito previsto na Constituição. A acusação se baseou nas chamadas
“pedaladas fiscais” e em decretos orçamentários. Dilma não foi acusada de
corrupção nem de enriquecimento pessoal.
Do ponto de vista político, muitos
juristas, estudiosos e observadores internacionais afirmam que houve um golpe
parlamentar. As práticas usadas como base da acusação já haviam sido adotadas
por governos anteriores sem punição. O impeachment resolveu um impasse político
usando um instrumento legal.
Em 31 de agosto de 2016, Dilma perdeu
o mandato. Quem assumiu foi Michel Temer, o vice-presidente. O Senado retirou o
cargo, mas manteve seus direitos políticos — algo incomum em casos de crime de
responsabilidade e que alimenta o debate até hoje.
Depois da Presidência, Dilma manteve
atuação política mais discreta no Brasil. Em 2023, foi indicada para a
presidência do Novo Banco de Desenvolvimento, o banco dos BRICS, com sede na
China.

